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quarta-feira, 27 outubro 2021
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Customizações ao Extremo

Antes de mais nada, vale dizer que o termo customizar é um neologismo e vem da palavra “custom”, do inglês que significa “personalizado”, ou “customer”, que é “cliente”. Dito isso, também vale registrar nestas tortas linhas que eu assistia compulsivamente aquele seriado enlatado “American Chopper”, onde  uns caras de uma mesma família construíram um negócio em torno de criar motos personalizadas – a OCC, ou Orange County Choppers. Sinceramente, 90% das criações que via, eu não gostava. Achava de extremo mal gosto e sem sentido estético, quase sempre era alguma empresa que pagava “os tubos” para os caras construírem uma moto com a cara da empresa (?!). Muitas vezes uma bizarrice sem igual.

Me perguntava se estes malucos e milionários tinham alguma preocupação física, do ponto de vista ciclístico mesmo. Meu Deus, eles pintavam e bordavam com a estética, e nunca falavam de balanço, peso, aerodinâmica. Empilhavam um monte de peças em volta de um quadro, e pá! Está pronta a moto, fadada a ficar exposta em algum museu corporativo, ou na sala do presidente. Até a moto Brasília, que eles fizeram e entregaram ao nosso populista ex-presidente Lula em 2009, é questionável. Conheci esta última pessoalmente há dois anos atrás. Aquela catedral no lugar do filtro é algo  incrivelmente bizonho, para ser educado e respeitar o gosto alheio. Será que a Família Teutul sabia que colocariam uma igreja no topo da entrada de ar? Pelamordedeus!

Sempre que pensamos em customizações, pensamos em motos modificadas ao extremo, as também conhecidas obviamente por “Customs”. Claro que há motos mais customizáveis do que outras, e a linha entre o bom gosto e o exagero é fininha, fininha…

Bem, para tirar algumas dúvida a respeito deste, muitas vezes, estranho universo, resolvi falar com quem toma café da manhã, almoça e janta customizações, e que inclusive é o médico da minha moto, a Road King 04 Beyoncé: Claudio Bessa, meu amigo, mecânico, customizador de alta qualidade e proprietário da Garage Code, um espaço para motos e motociclistas. Durante um bate-papo de uma hora sorvendo um pingado com pão na chapa na padaria da esquina, proseamos ao redor do tema.

Roberto Severo: Que tipo de customização você faz? Alguma preferência por marcas?
Claudio Bessa: Bom, o tipo de customizacão não tem limites, vai desde pintura, instalação de acessórios, até a construção de um quadro se necessário, passando pela criação de um chassi novo para a moto. Não há nenhum tipo de limitação. Quanto à preferência por marcas, existe mesmo a preferência pela Harley Davidson por uma questão de facilidade. A Harley é feita para você customizar, desmontar e montar de outro jeito, enquanto outras marcas, uma moto japonesa, por exemplo, você já tem uma certa dificuldade de conseguir peças e acessórios e você muitas vezes tem que acabar construindo tudo. Para a Harley não, o que você quiser você encontra no mercado.

Qual o pedido mais recorrente?
O primeiro deles, que quase todo mundo que tem Harley quer, é o escapamento. Trocar o original por um com um ronco diferenciado, que dê mais performance ou só o visual mesmo. Depois vem o guidão, geralmente adaptar o tamanho do guidão para o tamanho do piloto.

Qual o pedido mais esquisito ou curioso que você já teve?
Foi a customização de uma Harley Deuce ano 2000, que tem valor de mercado entre 25 a 30 mil reais, e a pessoa pediu que fosse colocada uma turbina com um sistema de “blower” por correia, com uma roda 240 mm na traseira que, só de acessórios e equipamentos, acabou por somar quase duas vezes o valor da moto.

Estorvos, você faz? Como diz ao cliente “Amigo, depois desta plástica milionária, o seu filho vai ficar feio”?
A customização é uma coisa muito pessoal, cada um tem a sua, cada um quer fazer do seu jeito. A gente assume o papel de orientar, dizer o que fica legal e o que pode não ficar muito interessante ou de acordo com a moto. Mas se o cliente quiser fazer deste jeito a gente faz. O cliente é quem manda na moto dele. Eu oriento até por uma questão de estética, mas a palavra final é do cliente.

A customização desvaloriza a moto?
A customização tende a valorizar a moto, por que ela está agregando produtos de qualidade. Ela só vai desvalorizar quando for mexido em uma parte estrutural da moto e que seja irreversível. Geralmente todas as customizações são reversíveis. Você pode tornar a moto original novamente. Claro que na hora de comercializar uma moto customizada você vai ter um público específico. Tem sempre o cara que procura uma moto customizada, que não quer ter o trabalho de fazer, e já vai buscar uma que está pronta. Mas a maioria quer fazer a moto de acordo com o seu próprio projeto. Portanto em alguns casos, quando é feita uma customização “pesada”, é interessante você manter a moto original e ter todos os acessórios para vender separado.

H-D Deuce – Turbo

Pensei que a conversa havia terminado na padoca, mas logo na entrada da oficina do Claudio, na rua Ponta Delgada, 43, estava a Harley Davidson Deuce 2000 que ele havia comentado. Claro que não dava para resistir e a conversa continuou. Saquei a máquina fotográfica e o resto é prosa:

Como ela chegou aqui? Tanto do ponto de vista técnico, quanto da motivação do proprietário?

Ela já veio para a gente semi-customizada. O motor já estava com um kit Scream Eagle II, já tinha escapamento com “super trap” de inox, amortecedor de direção, barra estabilizadora, que já visava buscar mais performance sem mexer na parte estrutural. A motivação de colocar o turbo é que o cliente é um cara que pesquisa muito e já havia visto este kit várias vezes e ninguém ainda tinha trazido para o Brasil. Aí ele começou a fazer as cotações e quis trazer, e por conta do turbo veio todo o resto: a troca das rodas, a balança, afastar a primária para entrar um pneu 240 mm na traseira, e a pintura que foi baseada na McLaren, que é o Ghost Chrome.

Quais foram os maiores desafios nesta moto? O que levou mais tempo?
A moto ficou aproximadamente seis meses desmontada por conta de importação. O kit do turbo é um produto americano, não tem distribuidor no Brasil, necessitando de uma importação direta, entrar na fila, aguardar todo o processo na Receita Federal, até finalmente a liberação. Está não é uma peça muito fácil de trazer de fora. E as rodas também. Ainda não há um “dealer” local, então a gente levou um tempo para trazer. Mas a parte técnica da moto não foi complicada, porque o kit vem pronto. É colocar e regular no

dinamômetro. Quanto à questão estética, para-lamas e pintura, foi feita sob medida. A ciclística da moto não foi alterada. A única coisa que modificamos foi o pneu 240 atrás, e melhorar os freio, né? Porque agora ela precisa (risos).

Dados técnicos do “Dragão de Komodo” Prateado:

Espero que o proprietário da moto me entenda, sou maníaco por colocar nomes nas motos, e este (“Dragão de Komodo”) veio de uma sugestão do meu pai, velho motociclista das antigas, e tinha que dar o crédito. Seguem as informações básicas desta bela customização:

  • Marca: Harley Davidson
  • Modelo: Deuce
  • Ano: 2000
  • Escapamento: Vance Hines Outlaw
  • Rodas:  dianteira 120×21 / traseira 240×18
  • Pneus: Metzeler
  • Kit turbo: Pro Charger
  • Pintura: Ghost Chrome
  • Potência declarada: 108 cv na roda / 56 kgf de torque na roda

É isso!

Keep riding!

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11 COMENTÁRIOS

  1. Tenho simplesmente dó de quem deixa esse ignorante, charlatão e mentiroso se quer olhar para a moto dele, quanto mais “fazer” uma custumização na moto… Uma pessoa que se diz mecânico deveria saber para que serve um simples giclê de mistura… Tsc, tsc…

    Lamentavél.

    • Concordo plenamente, e ainda acrescento que esse tal de Claudio é uma pessoa que vive de aparencia, nem se quer sabe como ligar uma moto.

      Já tive o desprazer de ver ele tentando ligar uma HD carburada… Deu na partida até acabar com a bateria, nao contente pegou um carregador de bateria para fazer uma chupeta na moto e depois de muito tentar a moto funcionou, porem deu dó de ver esse cara acelerar a moto FRIA a mais de 5mil giros…

      Nao sei como alguém tem coragem de deixar ele tocar em uma moto para qualquer simples reparo.

      Vou brindar e beber muito o dia que essa espelunca chamada Garage Bosta Code fechar.

  2. Caro Roberto, sou um humilde técnico em suporte TI Nivel 1, e provavelmente nunca farei algo parecido nem em uma moto de brinquedo.
    Gostaria de lhê pedir com grande carinho, se pudêsse postar um video desta criança roncando; 10s que seja ja me farão feliz!!
    Abração

  3. Olá Severo!

    Ótima essa matéria assim como todas as outras que escreve, gosto muito de ler sua coluna e seus testes. Eles aliam a parte técnica, comportamento no dia-a-dia e estrada além de muito humor. Estou ansioso pelo teste da 883, que com certeza será minha próxima moto (só que optarei pela roadster). Muito sucesso pra vc, Keep Riding!!

    • Luis,

      Obrigado pelo gentil comentário…

      Estou fazendo o teste do mês da 883 Iron, deve ser o segundo texto sobre ela. O primeiro teste, da primeira semana com ela, do Edgar Rocha deve estar saindo.

      Abração,

      Roberto

  4. pow cara perfeita a matéria só falta uma coisa, já procurei até no youtube, mass não achei, dá um jeito de pegar o som dessa moto. por favor queria muito escutar esse motor. grato

  5. Parabéns pela coluna… realmente a entrevista é esclarecedora. Estou querendo comprar uma 883 da HD e vou precisar do auxílio de alguém para modifica-la e nao quero correr o risco de deixar ela muito over.

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