One less car

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O trânsito nas grandes cidades fica pior a cada dia, e muitos de nós sentimos isso na própria pele. Parte do crescimento do mercado de motocicletas e, particularmente, das scooters, se dá no momento em que o motorista quer se transformar em motociclista. Tenho relato de amigos que trabalham no mercado de scooters, em que grande parte de seus clientes chegam à loja sempre com o mesmo desabafo “preciso fugir do trânsito, não agüento mais congestionamento!”. Acreditem, o mais curioso disso tudo é que 90% destes “ex-adeptos” das quatro rodas que se renderam a praticidade e ao prazer do equilíbrio em duas rodas, não têm habilitação para conduzir motocicletas!


Esse é o ponto que eu queria chegar. Existem diversas formas de ajudar a reduzir os congestionamentos. Os governos (federal, estaduais e municipais) vivem nos convidando a utilizar os precários e caros meios de transporte urbano — trens, metrô, ônibus —, a dar carona solidária, a ir ao trabalho de bicicleta, entre outras formas. Ou seja, o problema é seu, faça sua parte, submeta-se. Nosso papel, (do Governo) é incentivá-lo ao sacrifício.

Minha questão é a seguinte: se os governos andam tão preocupados com nossa qualidade de vida, bem estar e redução dos níveis de congestionamento nas grandes cidades, porque eles não dão o primeiro passo e incentiva a população a ir trabalhar sobre duas rodas motorizadas? Não estou falando de redução de impostos, incentivos fiscais ou descontos de tarifas. Falo de pequenas atitudes no que diz respeito ao órgão de trânsito local. Falo da liberação de habilitação específica para condução de alguns tipos de motocicletas. Não estou inventando nada! Isso já existe em diversos países como Espanha, Itália e França. Por que não adotá-los aqui?

Na Espanha funciona da seguinte forma: desde o dia 9/12/2010, para pilotar ciclomotores é necessário apenas um “Permiso para Conducir”, um documento muito mais fácil de obter que a habilitação normal. A idade mínima para obtê-lo é 15 anos e a prova consiste em um teste com 30 questões sobre trânsito. Com 16 anos, pode-se tirar a A1, que permite pilotar motos de no máximo 125 cm³ e 11 KW (15 cv) sem side-car — a prova já é mais difícil e inclui testes práticos. Quem tem habilitação do tipo B para carros (igual à nossa) há mais de 3 anos, também pode pilotar motos que se encaixam na categoria A1. É a famosa equivalência B-A1. Um espanhol de 18 anos pode tirar a A2, que permite pilotar motos (inclusive com side-car) de até 47 cv. O exame comporta 2 provas teóricas e 2 práticas, sendo uma em circuito fechado e uma realizada em vias públicas. Com 20 anos (obrigatoriamente depois de possuir a A2 por 2 anos) pode-se obter a “A”, que permite pilotar qualquer motocicleta.

Na Itália, para dirigir scooter (de até 75 cm³) é necessário ter mais de 14 anos. Para obter a A1, o candidato deve ter 16 anos e poderá pilotar motos de 75 a 125 cm³ de no máximo 15 cv. Outra regra é que só podem levar alguém na garupa os maiores de 18 anos. Lá também existe a equivalência B-A1. Depois disso, existe a carteira “A2 Acesso Graduale”, para quem já tem 18 anos. No primeiro ano com a A2, não se pode pilotar motos com mais de 25 KW (34 cv) de potência. Depois desse período, não existe mais limitação de potência. Ainda existe a habilitação “A3 Acesso Diretto”, que exige 21 anos de idade e habilita a pilotar qualquer moto. Na França, para dirigir legalmente um scooter de até 50 cm³ basta ter mais de 14 anos e seguir uma formação diferente, chamada Le Brevet de Sécurité Routière (BSR). Motoristas franceses habilitados para dirigir automóveis também usufruem da equivalência B-A1.

Sabemos que a burocracia, custos e tempo para se tirar uma habilitação categoria A em nosso país desestimula — e muito — a utilização de scooters e motos por parte de nossa população. Não quero entrar na questão que a moto-escola é feita com motocicletas com marcha e embreagem em uma pista fechada que em nada se parece com o trânsito que o futuro motociclista enfrentará. E nem o fato que após essa “avaliação”, se aprovado, ele está apto perante a lei a sair pilotando pelas ruas qualquer moto, seja uma “cinquentinha”, uma superesportiva que supera os 300 km/h, ou uma big-custom de 400 kg.

Quando se tem vontade e determinação, pode-se fazer qualquer coisa. Veja o que a CET faz aos domingos nas ruas de São Paulo. Centenas de funcionários, viaturas, cones, placas etc… para garantir ao paulistano algumas horas de passeio em uma ciclovia improvisada. Por que a população não pressiona as montadoras para mudar a legislação? Quem vai ganhar com isso são as próprias montadoras com um aumento significativo no volume de vendas. Será que nenhum vereador ou deputado não abraça esta causa?

Não entendo de leis, mas sei que quando há vontade, as coisas acontecem independentemente do DETRAN, da câmara de vereadores, de deputados ou do governo. Basta ver como foi imposta, da noite para o dia, a proibição de motos na Marginal Tietê em São Paulo e as novas leis que determinam a obrigatoriedade de rastreadores nas motos e de chip nos carros. Apenas imaginando, menos carros nas ruas, menos engarrafamentos, mais vagas para estacionamento, menos tempo gasto em deslocamento, aumento no volume de vendas de motocicletas/scooters…..não custa sonhar.

7 COMENTÁRIOS

  1. Transporte público esta cada vez pior, transito não podemos nem classificar a situação atual, que dizer do próximo ano? O poder público é pifio em suas politicas para resolver qualquer questão para melhoria da população em geral, quer seja aqueles que gastam mais de quatro horas no transporte público sem qualquer tipo de conforto, quanto para aqueles que enfrentam horas a fio dentro de seus automóveis em vias que mais parecem estacionamento a ceu aberto. O que deve ser feito para se mudar esse cenário, pelo menos iniciativa em discutir todos os setores inclusive fabricantes de ciclomotores e motocicletas, caso contrario a tendência para as grandes cidades será entrar em um colapso que se anuncia a anos.

  2. Assunto pertinente principalmente pela omissão oficial na cada vez mais dificil relação motorista X motociclista. Concordo plenamente com o ponto de vista do colunista!

  3. ….e o pior que esta já é uma realidade em não metrópoles como Goiânia e tantas outras já com seus 1MM de haitantes .
    A questão passa por civilidade, educação e senso coletivo .
    Excelente matéria .

  4. Concordo com a materia quando estamos falando de Motociclista, que tem muito mais responsabilidade quando estão sob duas rodas. O assunto é muito mais complexo do que imaginamos, pois em sua grande maoria a frota de duas rodas é composta muito mais por motoqueiros. Quanto a liberação da idade, poderia ser em uma segunda etapa no processo de mudança.

  5. Parabéns, gostei da matéria! Mas falta conscientização, educação, responsabilidade para “conduzir sobre 2 rodas” e/ou sobre 4. No final
    todos são prejudicados com a desordem do trânsito. Há muito a ser feito!
    Mas as “scooters” são lindas e tentadoras!!!!

  6. Concordo plenamente com o que foi exposto, mas o problema é a educação no trânsito do ‘motoqueiro’ que não é motociclista, basta ver o número diário de acidentes com morte na cidade de São Paulo…

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