Shadow 750: Na Sombra da Branca de Neve

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Texto e fotos: Roberto Severo

Eu tenho que concordar que na família dos Neves, a Branca é um talento indiscutível. Desde 1983 que a matriarca Honda produz uma prole de dar orgulho. Sim, 1983. Muitos leitores ainda não andavam nem de Velotrol quando o mercado (internacional) recebia a primeira Shadow, na época uma 500cc, a famosa VT500X, que tinha motor 491 cm³ em “V” e que é cobiçada até os dias de hoje no mercado motociclístico Brasil afora. No mesmo ano (83) foi lançado o modelo de 745 cm³. Depois veio a famosa VT600x, que na verdade não tinha tantas inovações técnicas, e foi vendida em terras tupiniquins até 2005, quando foi substituida de vez pelo modelo VLX/VT 750. Inicialmente a Shadow, anos antes do nascimento da Branca de Neve, como conhecemos hoje, lá nos idos de 2003, possuía dupla carburação, que era um troço mais feio do que bater na progenitora, e bomba de gasolina elétrica. A Honda caiu na real e, após 2005, começou a produzir a moto com carburação simples e com modificação na bomba de combustível.

Até 2008 a Shadow tinha em sua sombra (!) uma competidora a altura, a Yamaha Dragstar 650. Eu, em 2007, tive a oportunidade de ter uma Drag 2005, “viva” até hoje. Atualmente, se pudesse escolher, iria facilmente para a Shadow, muito porque a Drag saiu de linha e a Honda continuou a evoluir o modelo.

Mas o que importa é o que achei da nossa Shadow, com corpo remodelado e plástica facial, nesta semana de convivência.

Aproveitando o batismo de Branca de Neve que nosso colega Edgar atribuiu ao motociclo do mês, resolvi, não somente falar um pouco sobre a árvore genealógica, como também chamar alguns amigos da moça para ajudar na avaliação. Já que a Branca possui uma baixa altura, propiciando a pilotagem de pequenos de estatura, para auxiliar, chamei uma turminha de 7 pequenos homens imaginários que se disseram da família. Pequenos alteregos de personalidade forte. Eles emitiram suas impressões, as quais aproveitei aqui.

Conforto

Nada de muito inovador neste quesito se comparado com os modelo anteriores da Shadow: o banco da Branca é confortável e coloca o piloto em uma posição boa, afirmou o “louco por conforto”, Sr. Soneca. Os comandos avançados têm tudo a ver com moto custom e são muito confortáveis para a estrada.

Respeitosamente, o Sr. Dengoso, corado, olhando para o chão e fazendo movimentos de arco com o pé:  mas… hummmm… bem, a Branca  de Neve não é muito boa de sentir entre as coxas, sobram umas arestas em seu quadril, ou seja, o banco não acompanha as linhas demasiadamente retangulares do seu tanque. E na hora da montada, o interior das coxas fica bem nas quinas traseiras do tanque.

Zangado, curto e grosso

Na hora de enrolar o cabo para fazer uma ultrapassagem ocasional na estrada, a máquina não “pula”, ela vai acelerando progressivamente, falta motor para uma retomada de velocidade ágil. O motor em “V” de 52 graus e 745 cm³ é pouco para dar segurança em decisões rápidas, e se for realmente necessário fazer a passagem, exige uma reduzida de marcha para aumentar o giro e ganhar torque. Honda, quando vocês vão mandar a Shadow para a academia e deixá-la mais musculosa? Ok, ok, é um modelo mundial, mas aqui cabe outra pergunta para a velha japonesa:  Por que temos há anos a fio o mesmo modelo da Shadow, enquanto lá fora há outras opções para a amada Branca 750? Shadow Aero (puxa mais para o clássico, parece modelo antigo lançado no Brasil); Shadow Phantom (toda preta, inclusive o motor e aros, com linhas arrojadas); Shadow RS (uma “Roadster mais em pé”); Spirit (semelhante a Branca de Neve – o modelo brasileiro atual).

E sem perder o fôlego: por que não trazer outro modelo custom maior como opção para nosso mercado? Claro que abaixo da Golden Wing que já é vendida por aqui como “importada”. Falo de uma “Fury” ou  “1300 Custom Line”. Outras marcas como Suzuki (Boulevard 1500), Yamaha (Midnight Star 950) e Kawasaki (Vulcan 900) estão aí. Bem, por outro lado, imagino que seja uma estratégia ficar sozinha neste segmento, já que a Yamaha tirou a Dragstar de cena. Pelo menos poderiam dar opção ao consumidor como a Suzuki fez com a Boulevard, mantendo a 800 e oferecendo a corpulenta 1500.

Para as perguntas dos últimos parágrafos, claro que devem haver respostas racionais, mas não estão claras. Será que a leitura de nosso mercado não está um pouco míope e/ou defasada? Bom, vamos voltar ao técnico…

Ccrrrrrrrrrr…. Crrrrrrrrrrr… Sabem o que é esta onomatopeia? É o ruído que a roda da frente fez quando “alicatei” propositadamente o freio dianteiro em uma estradinha com um pouco de areia. C-ABS? Cadê o ABS para a roda dianteira? Bem, quando quase subi no pedal da direita, o C-ABS funcionou a contento, a suspensão tremeu, gemeu, pulou, o ABS funcionou e as rodas não travaram. Honda, é assim mesmo??? O C (Combined) ABS funciona só no pedal, na mão direita deixou a desejar?

Mesmo sem querer olhar para o copo com água pela metade e achar que ele está “meio vazio”, e sabendo que este é um detalhe estético, deve ser mencionado: a luz indicadora de reserva do combustível parece uma tocha, bem como a luz azulona indicadora de farol alto. E estes inventos de Thomas Edison ficam fixados na mesa, bem em cima do garfo da moto! Muito saquê no projeto.

A Honda faz o piloto Feliz sorrir!

A Honda sempre primou pelo câmbio justo e preciso, e aqui não foi diferente. Não mudou tanto mas sempre é bom reforçar este quesito: cinco marchas bem dimensionadas tanto parar a cidade quanto para a estrada. Mais à frente nosso Mestre entra em detalhes.

A suspensão também não tem tanta diferença dos modelos anteriores e dá conta do recado, inclusive nas crateras e lombadas urbanas. Com cinco regulagens, os amortecedores, que reforçam o estilo custom, podem ser adequados a cada tipo de piso ou carga. O mesmo dizemos do arrefecimento a água da Branca. Ela não esquenta a cabeça nem no trânsito difícil e sol a pino!

Sr. Feliz, o homem do “meio copo cheio”, olhou para o elegantérrimo velocímetro no bojo do tanque, que parece mais um relógio de luxo saído de uma revista especializada tipo Robb Report. Equipamento de bom gosto e que contrasta com o visor de cristal líquido. Tenho que dizer que dá prazer em olhar à noite para a iluminação branco-amarelada deste equipamento. Os indicadores de farol alto e reserva, bem que poderiam estar juntos, dentro do velocímetro, ao invés de estarem na mesa.

Transmissão: outro acerto desde 2006.

O eixo cardã é ótimo para a proposta da moto. Dá pouca manutenção, para não dizer nenhuma, além de ser silencioso e confiável. Minha experiência com cardã, seja neste teste ou mais a longo prazo na convivência de dois anos com a Dragstar, só rende elogios. Mas… se furar o pneu, o trabalho é maior. Precisa de manutenção? Vai ficar na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê! Chame o seguro. Só manutenção especializada mesmo.

Pergunte ao Mestre (Excelência meus caros, excelência).

Pergunta: Mas qual é a diferença entre os três sistemas mais comuns de tração (Cardã, correia e corrente)?

Resposta: A perda de energia cinética! Quando o motor entrega a potência para a transmissão secundária, pinhão, (cardã, correia ou corrente) e Coroa, há sempre uma perda de potência nesta troca (a física explica). Na corrente há menos perda (aproximadamente 2%), a correia fica no meio (aproximadamente 5%) e o cardã é o que “custa” mais caro em termos de troca (aproximadamente 9%). Aaaaaahhhh, é por isso que motos de competição, mesmo as mais novas, ainda usam corrente? Bingo!

Tudo depende do propósito! É uma relação de potência versus manutenção/ruído/durabilidade. A meu ver, a Honda acertou há alguns anos atrás em desacorrentar a “Blanca Nieves” e ir para o cardã. Tem tudo a ver com motos custom. Como gosto de dizer, cardã é uma boa relação “custom”-benefício.

P.: Qual é o segredo da excelência do câmbio da Honda?

R.: A Honda investe pesado neste órgão vital da moto, o sistema de transmissão como um todo. Me mostre uma nova Honda que eu mostro uma tendência para câmbio. Este não é o fórum, mas para ilustrar, veja a excelente reportagem de um ano atrás sobre o que está por vir em transmissão, preconizado pela Honda.

Um baixinho que respondia por Dunga, declarou à queima-roupa: “Gostei desta Harley branquela…”, disse com aquele sorriso permanente no rosto. Passeou na garupa em todos os testes e ainda acha que estava andando de Harley. Dá para entender?! Não precisa correr atrás de avião, para perceber que o novo modelo tem características da velha marca americana, principalmente no design (velocímetro, rabeta, chave lateral, apoio de pé do garupa de qualidade questionável, etc…). Sinceramente, nada contra, aliás, acho de muito bom gosto. O que é bom deve ser seguido, fora a pedaleira traseira que é vagabunda mesmo nas duas marcas. O da Honda ainda é melhor.

Conclusões:

A Branca de Neve é uma donzela (?) bem ajeitadona, com alguns detalhes questionáveis de projeto que não comprometem tanto o resultado, afinal de contas, depois de quase 30 anos de desenvolvimento (1983), e uma linha respeitável de motos, se a Honda não fizesse algo decente era para pendurar a chuteira e o capacete e focar em vender Civic e outros veículos “quadrúpedes”.

Não existe uma verdade para todos, portanto acrescento à conclusão dois finais:

Para os antigos fãs do modelo, aproveitem, pois a Honda não deixa a peteca cair, aprimora o modelo a cada ano!

Para o novo adepto, recomendo estar por dentro das limitações e qualidades, fazer um “test ride”, não só da Shadow, mas também dos modelos concorrentes da terra do sol nascente citados no texto.

Sim, leitor, você contou direito, o sétimo ajudante estava resfriado e não compareceu.

E como sempre digo,

Keep Riding!

6 COMENTÁRIOS

  1. Ei, carinha: Já estava na hora de um BELO comentário a respeito da “SHADOW” (acho até que a Honda deveria dar uma de presente para ele) . Também com ajuda de + 6 mini/colaboradores, tudo fica mais fácil (coitado do Acthim, sempre com a saúde mais debilitada, não aguentou a chuva,vento e frio da semana do teste). Aproveitando a deixa dos baixinhos, quero lembrar que não só eles levam vantagem na reduzida estatura da moto. Também os idosos como eu (70+), com problemas nas articulações e doido para andar de moto, ficaram mais felizes. Abrax.

    • Valeu cara…

      Muito bem complementado com a questão da comodidade para todas as idades!!!!

      Parabéns pela vida motociclistica. +70 – WOW!

      abrax,

      Roberto Severo

  2. Boa Severo,

    gostei mais uma vez do texto. Divertido sem deixar de entregar muita informação… a HONDA DEVERIA ESCUTAR MAIS O MERCADO. Isso não é somente problema da Honda, mas das montadoras brasileiras. Melhoras para o Atchim! lol

    Couto

    • Marcos,

      Obrigado pelo comentário… Sim, não só a Honda precisa olhar mais paras o interesses dos motociclistas brasileiros. Acho que teria uma surpresa.

      Abraço, e continue com a gente.

      Roberto Severo

  3. Roberto, gostei muito do texto, leve e explicativo… parabéns, quanto aos modelos de shadow que vc mencionou no texto, tem algum site que mostre a foto?

    abraço,

    Augusto

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