On Any Sunday…

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On Any Sunday...

Fotos: Divulgação e Reprodução

Existem filmes que marcaram nossa adolescência. Filmes que mostravam tudo aquilo que gostaríamos de fazer e que nossos pais não deixavam. Que nos faziam suspirar e nos vidravam os olhos, mesmo que o filme se passasse em um universo muito distante da nossa realidade.

O filme a que me refiro, é “On Any Sunday” de 1971 (Num domingo qualquer), com direção Bruce Brown e participação de Steve McQueen, Mert Lawwill, um famoso piloto de motovelocidade e de dirty track e Malcolm Smith também reconhecido piloto fora de estrada. Esse filme, na época, foi tão falado, que recebeu a nomeação para o prêmio de melhor documentário em 1972.

Veja o trailer:

Isso tem mais de quarenta anos. Eu tinha somente 7 anos na época de seu lançamento, e só pude vê-lo mais tarde, não lembro quanto tempo depois e através de uma cópia safada num velho e surrado vídeo cassete. Não me recordo quantos anos eu tinha, mas ele me marcou muito, pois continha tudo o que eu queria fazer e não podia. Mostrava um mundo distante onde o espírito de liberdade era o mais importante. Um mundo onde se respirava motocicleta. Mostrava muita paixão e o mais puro prazer de andar de moto. Com toda a certeza ele é desconhecido por muitos, mas o pessoal mais velho, das antigas, ligado ao mundo das duas rodas, viu com certeza.

Talvez ele não seja um ícone cinematográfico, em que a motocicleta aparecia somente como um coadjuvante, como em The Wild One  (“O Selvagem” – 1953), com Marlon Brando, ou em Easy Rider (“Sem Destino” – 1969), com Peter Fonda, Dennis Hopper e Jack Nicholson, ou mesmo em The Great Escape (“Fugindo do Inferno”), com a famosa cena do Steve McQueen pilotando em uma Triumph TT Special 650 “ maquiada”  para parecer uma motocicleta do exército alemão.

Mas ele foi o primeiro filme real sobre motocicletas, um clássico onde a motocicleta é a protagonista e seus pilotos os coadjuvantes. On Any Sunday foi na época, sem dúvida, o melhor e mais importante documentário sobre motos já feito. Despertou a curiosidade e interesse de muitas pessoas para o mundo do motociclismo de competição. Assim como The Endless Summer, do mesmo Bruce Brown, feito em 1966, marcou a vida dos surfistas e apaixonados pelo surf, e Heavy Metal – Universo em Fantasia, de 1981 foi um marco na vida dos aficionados por quadrinhos e rock, On Any Sunday mostrava o universo das duas rodas e a vida dos pilotos e entusiastas por todo tipo de corrida de motos.

Nele você encontra de tudo, desde Triumph, Husqvarna, Harley-Davidson, Honda e Yamaha, até mesmo marcas que foram desaparecendo no tempo como BSA, Bultaco, Greeves e Hodaka.


O filme foi parcialmente patrocinado por Steve McQueen, um dos maiores entusiastas do motociclismo, e como não contava com equipamentos de ponta, para conseguir o mesmo efeito de câmeras de alta velocidade (impossíveis de conseguir com baixo orçamento), eles ligaram câmeras de 12 volts em baterias de 24 volts, aumentando assim a velocidade das câmeras. As filmagens eram tão revolucionárias para a época, que até mesmo foi utilizada uma câmera presa a um capacete. Mas antes de dizer “e o que isso tem de mais?” lembre-se que tudo se passa em 1971 e as câmeras eram enormes!

 

Devido ao ineditismo da ideia e seu conteúdo, até mesmo os Marines cooperaram, cedendo a área de uma base militar para algumas cenas, tal como a cena final onde Steve McQueen, Mert Lawwill e Malcolm Smith pilotam sua motos nas dunas ao por do sol.

O filme ficou como um marco no motociclismo norte-americano e alguns críticos dizem que o universo das duas rodas naquele país ficou dividido entre antes e depois do filme. Tanto que fizeram mais tarde o On Any Sunday II em 1981, On Any Sunday: Revisited em 2000 e finalmente On Any Sunday: Motocross, Malcolm & More em 2001.

Em 2011, a revista Cycle World reuniu no mesmo local das filmagens, Bruce Brown, Mert Lawwill e Malcolm Smith, desta vez com motos Husqvarna, para celebrar os 40 anos do antológico On Any Sunday.

E daí, o que isso tem a ver 41 anos depois, aqui no Brasil? Simples. Estamos sempre recriando padrões e copiando exemplos que vimos durante a vida e que aprendemos com nossos pais. O que para nós era um universo distante, seja pela idade, pela falta de grana ou oportunidade na época, fazemos hoje, não só aos domingos, mas durante todo o final de semana. Instalamos nossas câmeras on-board, cada vez menores e com melhor resolução em nossos capacetes ou tanques e depois compartilhamos as imagens. Marcamos com nossos amigos, trilhas ou simples passeios e não paramos de falar nem um minuto sobre motocicletas.

Algo nos despertou para esta paixão, seja o exemplo de nossos pais, um filme que assistimos ou uma velha revista que folheamos no passado. Ao ver as primeiras cenas do filme, lembro que prendia a tampa de plástico do sorvete de copinho, com um pregador de roupa na roda da bicicleta, para ela fazer barulho semelhante a uma moto.

Lembro o quanto desejava encontrar meus amigos na rua, de Velosolex, Puch, Mobilete, Mini Enduro ou ST 70 e filar uma voltinha. Depois de anos, acabei por trabalhar com motocicletas. Mas não acho que isso tenha sido coincidência. Acredito que foi um “vírus” contraído na infância, por muito tempo sufocado e que por mais racional ou proibido que fosse, acabou aflorando e me levando de uma forma ou de outra para o mundo das duas rodas.

O desejo pela liberdade e pelo vento no rosto vem de longe e às vezes fica guardado por anos. Mas acredite: um dia ele acha uma saída, se manifesta e acabamos sendo chamados para passear sobre duas rodas em um domingo qualquer, e às vezes pela vida toda.

A paixão pelas motos e pelo desafio de se equilibrar em apenas em duas rodas faz parte da vida de todos. Uns passam dos pedais para o motor, outros guardam a vontade no peito enquanto aguentar. Se você pretende assistir a esse filme, cuidado. Cuidado para não se decepcionar, com as imagens toscas e de baixa qualidade ou com as velhas e ultrapassadas motos.

Veja o filme completo:

Antes de assistir este ou qualquer um dos filmes citados acima, você deve se transportar para aquela época e entender o que a motocicleta e a atitude sobre duas rodas representavam. Deve lembrar-se que naquele tempo a motocicleta representava a quebra dos padrões vigentes, com atitudes e comportamento diferentes dos aceitos pela sociedade. Talvez por isso que até hoje ela desperte tanto interesse, curiosidade e paixão.


Talvez por isso que encontramos tantos motociclistas reunidos em um domingo qualquer…

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