Let's Rocker 'n' Roll – A Estilosa Rocker da Harley

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Para ler estas impressões, relaxe, escolha um momento sossegado e faça aquele capuccino cremoso, pois espero que a leitura destas sinuosas linhas se aproxime do prazer que tive no meu breve, mas proveitoso, relacionamento com a Jane “Rocker” Fonda.

Uma breve história do pós-guerra

Bobber

Final da II Grande Guerra. Nos Estados unidos, os soldados remanescentes buscavam emoção e divertimento até mesmo em celebração da nova vida muitas vezes traumatizada pela guerra.

Muitos veteranos foram treinados na época de serviço militar para executar serviços mecânicos em carros e motocicletas e queriam aproveitar este conhecimento para apimentar um pouco suas vidas no pós-guerra. As motocicletas e os chamados “Hot Rods” eram o hobby perfeito para preencher esta necessidade.

Então, motociclistas compravam sucatas e motos aposentadas pela guerra por preços excelentes. Eles removiam todas as peçam “desnecessárias”, como parabrisa, pisca-piscas, alforjes, etc. para diminuir o peso, e poderem participar de corridas (muitas vezes ilegais).

Os paralamas, na maioria das vezes eram também cortados e mantinha-se o suficiente para segurar um pouco do barro das rodas. Os garfos eram modificados aumentando o angulo em relação ao chassi, o que deixava a moto mais estável em alta velocidade, porém difícil de pilotar em baixas. As pedaleiras originais eram avançadas de deixar o piloto numa posição mais confortável (estamos falando de altos “mariners”) além de conferir um visual esteticamente mais bonito também.

Inspiração na Chopper do filme Easy Rider

A era das bobbers e choppers se iniciava e este espírito foi imortalizado no filme Easy Rider (1969) aliado ao sentimento e necessidade de liberdade do final da década de 60 e início dos anos 70.

Aqui entra a Rocker em cena! Se 1969 fosse hoje, muito provavelmente a Rocker seria cogitada para participar do filme Easy Rider, estrelado por Peter Fonda, Jack Nicholson e Dennis Hopper. Mas isto foi o que constatei no final do meu efêmero “affair” com a Jane, a Jane “Rocker” Fonda.

Opa, não, não é o que está pensando, não é a esposa do protagonista do Road Movie mais famoso de todos os tempos, mas o nome que batizei a Rocker que pilotei durante uma semana para escrever minhas impressões.

Vou iniciar falando do visual, que chama muito a atenção e que é praticamente irretocável quanto ao design, aliando modernidade aos tradicionais modelos choppers de décadas atrás. Há alguns cuidados que a H-D poderia ter tomado, mas deixo para falar sobre isso mais para frente.

Pilotagem

Aqui a gente divide em duas categorias:

Baixa velocidade:

A ciclistica não propicia em nada nesta condição, fica instável, e as curvas são difíceis. Não faz manobras curtas e você não vai alcançar nem mesmo uma pequena utilitária 125 cm³ no trânsito.

Alta velocidade:

É onde a Jane fica em casa, o garfo jogado para frente aliado com o banco baixo e os  24 cm do pneu traseiro, faz com que a pilotagem seja única e muito prazeirosa. Mas curvas ainda não são para todos, precisa ter uma certa experiência e conhecer alguns truquezinhos úteis.

O contra-esterço é um deles, parece coisa do capeta, mas consiste em virar para um lado e fazer a curva para o outro. A física explica: como a roda traseira é colossal, a moto tende a ficar em pé. O que fazer para a moto virar? Receita: se deseja fazer a curva para a direita, puxe um pouco, pouquíssimo, o guidão para a esquerda (sim, é estranho), como a moto perde apoio do lado direito, ela tenderá a deitar para este lado, aí é só acompanhar com o corpo. Voilà, curva feita! Sim, talvez seja melhor reler o texto em negrito para entender melhor a minha curta tentativa de explicar a manobra demoníaca.

Suspensão

Na minha viagem para a baixada santista, litoral paulista, pus a suspensão a prova. Voltei pela avenida da praia e acabei por entrar na área portuária, que pela própria idade da região, ainda mantém quilômetros de piso com paralelepípedos. Não somente a suspensão, como todos os parafusos, porcas, dentes e estômago do piloto (eu) foram postos a prova. O pastel que havia comido no almoço falou “Hello” algumas vezes, deixando claro que a moto não é para isso e que a sai da concessionária com as peças bem apertadas.

Freios e outros instrumentos

O freio ABS faz bem o trabalho, à altura de uma moto potente e pesada, porém poderiam ter uma resposta mais precisa quando acionados, mas não compromete em nada.

Os espelhos são excelentes e nos tradicionais formatos da H-D, porém poderiam ser um pouco mais abertos para facilitar a visão, sem falar que estes equipamentos, geralmente usados como referência de largura do corpanzil da moto, aqui na Rocker… na, na, na:  a Jane tem cintura larga, e se você medir a largura da moto se baseando nos espelho, periga ficar pendurado no pneu de um caminhão.

Pela própria proposta minimalista, a moto somente possui apenas um instrumento acima do longelíneo e elegante tanque de combustível, e que fornece uma boa gama de informações: odômetro, 2 controles de “trip”, autonomia faltante, indicador de marcha e conta-giro digital. Tudo isso pode ser controlado pelo polegar da mão esquerda e visualizado no display do velocímetro analógico. Gostei, não teria nada a ver um painel de Ultra Glide, por exemplo, em uma moto deste estilo.

O câmbio é bem regulado, com marchas muito bem dimensionadas agregando muito prazer na pilotagem, a sexta marcha na estrada é uma maravilha, e mesmo assim ela responde bem à aceleração, graças ao motorzão que ruge embaixo das pernas. Claro que quando se engata primeira a partir do ponto morto, ela já vem de linha com o típico barulho de uma marretada! Se não for assim não é H-D, devolva para a concessionária! Deve haver algum grave defeito na transmissão.

Design acima da função

Como uma chopper original, na Rocker, o design muitas vezes foi privilegiado em detrimento da função de algumas peças, por exemplo o paralama traseiro, que não segura muita água (nem barro) em dias de chuva. Enfreitei uma situação desta no último dia com a Jane Fonda, e as costas da minha jaqueta ficou toda respingada de barro, parecendo quadro de arte abstrata.

O engenhoso banco do garupa, faz bem a sua função, e com algumas modificações poderia até mesmo virar um encosto para o piloto solo. Fica aqui a sugestão que ouvi e concordei.

 

Algumas considerações em relação a Rocker que poderiam ser revistas pela H-D:

– A cromação do guidão parece um pouco avermelhada se comparado com o próprio riser que o sustenta. Eu já percebi esta característica em outras Harleys mais recentes, por exemplo em uma De luxe de um amigo, já a minha Road King 2004 não apresenta esta diferença de coloração, totalmente indesejada ao meu ver.

– Por mais que o estilo da Jane remeta a uma era onde as motos eram cortadas no machado, a H-D apresenta o modelo como top de linha, portanto, ao meu ver, as pedaleiras, não são bem acabadas e extremamente simples, o que dá uma péssima impressão até mesmo no mais incauto observador. Assim como alguns parafusos que ficam em evidência, por exemplo os que seguram o guidão no riser, que são galvanizados ao invés de cromados. Acabamentos que fazem a diferença.

É interessante que a Harley parece que capricha mais na linha Touring, mesmo quando os modelos têm preços semelhantes aos praticados na linha Softail. Coloquem então na conta antes de comprar a Rocker, quatro pedaleiras novas, que por coincidência a Harley vende belíssimos modelos e alguns parafusos cromados que ao meu ver nada tem a ver com customização, pois deveriam ser de linha.

– A vareta do câmbio, também é bem “crua”, e quando você nota isso, nunca mais esquece, é infernal! Bastou uma vez que me chamaram a atenção neste item da minha H-D, que era a primeira coisa que eu via quando olhava para ela. Era uma moto montada em volta de uma vareta de câmbio. Minha vida estava perdendo o sentido, até que um dia comprei uma capa cromada da H-D e voltei a ser feliz.

Não, não pense que estas peças sofreram alterações causadas pela queda de preço da linha H-D no Brasil conforme foi noticiado [ aqui ], pois já era assim nos anos anteriores.

Mitos:

H-D vibra: muitos dizem que Harley tem que tremer mais do que gelatina senão não é Harley. Bem isso é uma meia-verdade, hoje em dia os modelos da linha Softail (caso da Jane “Rocker” Fonda) são extremamente mais equilibrados, principalmente em movimento, algumas motos da linha Touring anteriores a 2006 ainda apresentam um desconfortável treme-treme. a Beyoncé, minha Road King Preta 2004, é assim. Mas eu aceito do jeito que ela é, há outros atributos que compensam.

H-D vaza óleo: está na hora de fazer uma nova visita a uma concessionária, a última deve ter sido nos anos 80.

Conclusão

Podem existir motos extremamente mais modernas, ágeis e tecnicamente mais perfeitas que as Harleys, mas, quando uma Rocker passa, é quase irresistível segui-la com os olhos pelo menos por alguns momentos. Uma belíssima moto, para quem gosta de motocicletas grandes, curte uma estrada, e principalmente respeita a história da H-D. Seria difícil imaginar uma outra marca ser mais credenciada para projetar uma moto neste estilo.

Rock 'n' Roll Jane, Rocker 'n' Roll!

9 COMENTÁRIOS

  1. É meu amigo, lendo uma matéria destas e vendo essas fotos que eu vejo que todo aquele papel com numeros desenhados fazem falta na vida de um vivente!

  2. Só uma correção: “Receita: se deseja fazer a curva para a direita, puxe um pouco, pouquíssimo, o guidão para a esquerda (sim, é estranho), como a moto perde apoio do lado esquerdo, ela tenderá a deitar para este lado, aí é só acompanhar com o corpo. Voilà, curva feita!” na verdade seria: como a moto perde apoio do lado direito, ela tenderá a deitar para este lado (direito)

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