H-D Iron 883: A sapatinho de cristal

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Fotos e Texto: Roberto Severo

Gostaria muito de ter sido a autor da brilhante analogia, mas devo os créditos ao meu colega e repórter da Best Riders, Danilo Alves. Pois bem, a H-D Iron 883 é a representação de um lindo sapato de salto alto e fino, com pedras incrustadas e com um pequeno nome estampado de um estilista europeu. Todo preto, acompanhado de um vestido longo, o sapato é mais uma forma de representatividade de status, de desfile, para ser exibido mais pela sua imagem do que pelo seu conforto.

Sim, toda mulher reclama que o sapato social é desconfortável, até o das marcas mais caras. E no meio para o fim das festas, muitas deixam de lado a sua relíquia dividida em longas parcelas para a leveza de um pé descalço e ou de uma sapatilha levada sorrateiramente na bolsa. Não consigo encontrar uma analogia mais perfeita do que essa para comparar com a nossa querida Iron 883.

Ela é desconfortável para média e longas viagens, os espelhos são ineficientes, o motor aquece a ponto de cozinhar as suas pernas, o sistema de transmissão é duro, os freios são pouco efetivos e toda a vez que você parar em um sinal terá que desviar as pernas para não bater na pedaleira e machucar a canela. Mas essas características todos sabem e já foram levantadas pelos testes de Edgar Rocha e Roberto Severo. E além do mais, o piloto comum irá perceber essas características nos primeiros quilômetros rodados.

Mas a questão é: isso não desvaloriza a nossa pequena Rachel Alexandra, assim batizada por Roberto Severo. E isso pode ser corroborado facilmente olhando os números de vendas da moto. Até o fechamento do mês de junho, ela foi o modelo mais vendido da Harley-Davidson no Brasil, perdendo o título somente em julho para a Fat Boy Special 1600. E isso por apenas 10 unidades.

Como explicar esse fato? É fácil. Assim como o conforto não é um argumento diferencial para que uma mulher deixe de comprar um sapato de salto alto, o mesmo não se aplica para a aquisição de uma Iron 883. Sim, a pequena Rachel é o sapatinho de cristal masculino, desejo de consumo pela sua aparência e status.

E exatamente neste ponto percebo facilmente a intenção da Iron. Ela não foi feita para oferecer conforto, mas sim um visual diferenciado e a sensação de liberdade, que lhe remete lá à década de 60. Agora entendo o porquê da sua vibração no guidão e nos pedais e do vento que entra involuntariamente pelas mínimas frestas do capacete quando se está pilotando uma Iron a uma velocidade mais rápida. É porque ela foi feita para se andar sem capacete, com pequenas luvas com os dedos de fora e com botas estilizadas. Consigo enxergar claramente um grupo de Hell’s Angels atravessando o litoral de San Francisco (Califórnia), todos pilotando Irons. E seria mais coerente se o jornalista norte-americano Hunter Thompson tivesse comprado uma Rachel para lhe acompanhar quando aderiu ao grupo e escreveu o seu famoso livro sobre a gangue americana de motociclistas.

Bom, não existe meio termo para uma Iron 883: ou você ficará apaixonado por ela ou a achará um lixo. E isso vai depender apenas da característica que você quer da moto. Como já adiantei na analogia inicial, um sapato de salto fino ou um confortável tênis para caminhada. E assim como no segmento dos calçados, você poderá comprar os dois modelos por praticamente o mesmo preço. Vai depender apenas da sua utilização.

Deixando as comparações um pouco de lado, quero me ater a alguns detalhes técnicos que acho que valem a menção. Pessoalmente, achei a Rachel linda, ainda mais toda preta. As roda com 13 raios de liga-leve e tampas de válvula combinando com a pintura (como já disse Severo) realmente dão um charme especial.

O painel sintético oferece todas as informações necessárias para a pilotagem em áreas urbanas e rodovias. Nota: mesmo em movimento é muito simples mudar as informações do display digital de hodômetro total para parcial ou para o relógio. Para isso, basta apenas um toque no botão que fica localizado na parte posterior do painel. O assento reduzido, que exclui a possibilidade de um garupa, me lembrou rapidamente os automóveis esportivos com apenas dois lugares.

De todas as características que poderiam ser consideradas negativas na pequena Rachel, acho que apenas duas deveriam ser revistas. Pilotar com os espelhos originais pode ser perigoso nas estradas, principalmente à noite, pois a visão é muito prejudicada. A minha segunda ressalva é sobre os freios. Tive apenas uma situação em que foi necessário acioná-los de forma mais brusca e a resposta foi mais lenta do que o esperado. Foi preciso pisar com força no freio traseiro e após acionar o dianteiro para conseguir reduzir o suficiente para não colidir com um carro que cortou a minha frente sem dar sinal (e ainda falam que são as motos que prejudicam o trânsito).

Na estrada, a Rachel tem potência de sobra para ultrapassagens e uma boa velocidade final (não cheguei a esgoelar a moto, mas ela alcança com bastante folga aos 140 km/h). Mas pelo amor de Deus, não faça viagens longas sem intervalos para descanso! Sua coluna e suas nádegas irão agradecer. Percorri 250 quilômetros em uma velocidade de 120 km/h e a média de consumo obtida foi de 21,7 km/l. Considero bem econômica para uma moto com 883 cilindradas e 251 quilos de peso seco. Nos 250 quilômetros de volta, pilotando em uma média de 130 km/h, o rendimento caiu para 20,4 km/l, valor que ainda considero muito bom.

Fora as pancadas características da marca quando se troca de marcha, um fato me chamou a atenção: a Rachel praticamente exige a mudança quando se chega a uma determinada rotação. Primeiro os pedais e começam a vibrar. Em seguida, os retrovisores espelham apenas borrões ao fundo e o guidão lhe implora que você troque a marcha.

De fato, a Iron 883 é uma moto urbana ideal para pequenos deslocamentos e principalmente para quem sonha em ter uma Harley-Davidson e exibir para todos os seus amigos a sua companheira de duas rodas. Na cidade ela se sai bem, principalmente com o ótimo torque nas primeiras marchas. Dificilmente você engatará a terceira. Ela também pode ser explorada em pequenas viagens. Mas nada de se exaltar e querer atravessar o Brasil sobre a pequena Rachel. Além de desconfortável, você será obrigado a parar quase que de hora em hora para abastecer. Isso porque após consumir 8,3 litros de combustível ela acende a luz da reserva no painel (ainda restam 4,2 litros de reserva).

Se você estiver disposto a gastar quase R$ 30 mil para ter uma moto com muito charme, estilo e status, a H-D Iron 883 é uma ótima opção e talvez você se apaixone logo a primeira vista. Agora, se você primar pelo conforto, pela funcionalidade, pela velocidade, pela esportividade ou pelo uso urbano ou estradeiro o mercado oferece outras opções mais indicadas pelo mesmo preço.

15 COMENTÁRIOS

  1. O autor dessa reportagem de baixo nível parece ser uma pessoa muito racional, avalia as motos pelo motor, conforto e etc. acontece que moto não é só razão mas paixão também. Tenho 2 motos, uma 400F e uma 883, sou apaixonado por ambas.
    Sem duvida o autor no fundo gostaria de ter uma 883 mas não consegue justificar essa vontade perante sua razão ou perante seus colegas de moto que devem ser todos jaquetinhas, muito machos. Por isso ando solo. Homem em bando sempre vira babaca.
    Esse tipo de matéria que provoca o rascismo no motociclismo. Existem vários tipos de motos, ainda bem!!!! Que merda seria serem todas iguais.
    Se quer conforto não compre uma 883 e faça um favor, descarregue essa sua inveja e raiva em outra coisa, não escrevendo matérias inúteis.

  2. Olá, pessoal!

    Dia 22/12/15 aproveitei a promoção e tirei a “Menina” da concessionária.

    Amaciei o motor como manda o manual, e oito dias depois (dia 30) voltei pra fazer a revisão dos 1.600km.

    Dia 03/01/16 parti de Salvador – BA até o sudoeste do Paraná, e retornei dia 19/01. Foram 6531km rodados, de forma que antes de completar um mês, a Menina já estava de volta pra revisão dos 8 mil.

    A moto é show!

    Gostaria de convidá-los a pegar uma carona e ler meu artigo sobre a viagem no link:

    http://www.ibahia.com/a/blogs/estrelas/2016/05/12/textos-soltos-da-baia-de-todos-os-santos-ao-sudoeste-do-parana-diario-de-motocicleta/

    Minhas impressões sobre a Iron foram um pouco diferentes das impressões do autor deste texto.

    Em relação aos espelhos, eles são eficientes, sim, mas é necessário fazer a ergonometria para cada piloto, não basta apenas ajeitar com a mão. Solte os espelhos e procure a posição correta até encontrá-la. Acredite, a H-D faz motos há um século, eles sabem fazer espelhos retrovisores eficientes.

    Para longas viagens você precisará de um encosto mínimo para a lombar, eu fixei a mochila no diminuto banco do garupa, de modo a poder apoiar a base da lombar e ficou show. Mas também vale lembrar que toda longa viagem de moto tende a ser cansativa para o corpo, especialmente se estivermos sedentários, mas isso tá na conta de ser motociclista. Longas viagens de moto me ensinaram que para quem quer levar muita bagagem ou ter muito conforto, a moto não é o veículo ideal.

    O tanque é pequeno, mas a Iron é econômica e pode fazer até 24l se a tocada for comportada e não passar de 115km/h. A pequena capacidade do tanque só se torna um inconveniente de verdade se a rota escolhida atravessar regiões muito ermas, com poucos e esparsos postos de abastecimento.

    Durante a viagem de ida e volta da Bahia ao sudoeste do Paraná, abasteci a cada110km, em média, e isso não representou problema nenhum. A autonomia pode ser o dobro disso.

    O superaquecimento do motor, a ponto de ser incômodo, só acontece no transito da cidade, onde se utilizam mais as 1º e 2º marchas, poucas vezes e por pouco tempo a 3º e raras vezes a 4º. O motor é refrigerado a ar, e andando em marcha lenta não refrigera adequadamente. Tá lá, no manual da Iron, alertando para não andar nestas condições por tempo demasiado.

    Por isso, na minha opinião, não faz o menor sentido dizer que uma motocicleta de 883 cilindradas é pra uso urbano ou pra pequenas distâncias. O desempenho da Irom na cidade é ótimo, mas ela gosta mesmo é de andar livre e solta, cortando vento em pista desimpedida.

    Dura ela é, mas falar isso de uma moto projetada (em 1957) para corrida, é redundante. Um fórmula 1 é duro, uma Ferrari é dura. Faz parte do projeto, não são veículos tipo passeio.

    Tive três eventos ABS durante a viagem, onde esse sistema de frenagem mostrou todo seu valor. Depois destas três experiências, posso dizer com propriedade que a Iron tem freios eficientes e confiáveis.

    Enfim, é um modelo cheio de idiossincrasias, tem seus pontos forte e fracos, claro, mas a Iron 883 é uma moto sensacional!

    Valeu, gente. Aquele abraço!

    • Parabéns pelo seu artigo e suas considerações Fernando. Enriquecedor em experiências. Parabéns pela postagem no blog e pela linguagem de emocionar. Enorme abraço Best Rider!

      • Caros amigos da Best Riders
        Me sinto muito contente e prestigiado por terem visitado e lido meu artigo. Agradeço a atenção e o teor incentivador do comentário. Visitar o Best Riders me ajudou na escolha da Iron 883.
        Abraço a todos!!

  3. Ótima analogia .! Descreveu perfeitamente o que é essa motinha, pesquisei muito a as reclamações do pessoal são as mesmas. Cheguei até fazer um teste com ela. Uma bela moto mas ….. Quase comprei uma mas o bom senço bateu em mim e achei melhor e mais confortável para o meu corpo e meu bolso, investir na Midnight foi a melhor opção, linda moto super confortável custo beneficio muito melhor .

  4. “…Foi preciso pisar com força no freio traseiro e após acionar o dianteiro para conseguir reduzir…” ???? Bem se vê que o autor entende muuuuito de moto….

  5. Pelo teor da matéria da p/ ver que não conhece e nao sabe o que é ter uma Sportster. Tudo o que foi criticado da Iron são caracteristicas das Sportster, são feitas p/ serem assim mesmo, não é a toa.. tem um porque… pesquise a historia das sportster e vai entender um pouco do que é essa moto.
    “Sportsters are like prison shanks: Small, fast and deadly”

  6. Falou tudo, estou ainda em lua de mel com a minha. É uma moto para passeio, para curtir a estrada sem pressa. Diria que a Iron não é a compra racional, é emocional! É aquela gostosa que vc sabe que não é moça pra casar, mas não resiste…rs

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