Depoimento: Troca de estilo

9
3092

O que é bom para os EUA, não é necessariamente bom para o Brasil

Foto: divulgação

Sou motociclista há muito tempo, meu primeiro tombo foi em uma Gareli 3 marchas no paralelepípedo molhado quando eu tinha uns 15 anos (eu sei, não tinha habilitação ainda…) e a paixão por motos, especialmente motos grandes, nunca passou. Depois de anos com as motos trail pequenas e médias, em 2006 comprei uma Harley-Davidson Electra Glide imaginando no conforto de fazer longas viagens pelo Brasil, ouvindo música, carregando malas e bagagens, e a esposa na garupa, claro!

A história dessa moto é interessante, porque antes dela tive uma Yamaha Drag Star por apenas 6 meses, também comprada zero km. Foi uma frustração, porque o estilo “Custom” tem lá seus problemas: Pouca penetração aerodinâmica, pouca potência, baixa distancia de solo (quebra molas raspam por baixo do motor, bem como as pedaleiras em curvas em subida de serra), e principalmente suspensões muito ruins para o solo brasileiro. Insatisfeito com a Drag Star e sua incapacidade de sustentar altas velocidades de cruzeiro, vendi a moto e dei de entrada na Electra Glide, o supra sumo das Harley Davidson.

A moto de fato é uma delícia, muito forte, muito confortável, exatamente aquilo que eu queria, mas, e sempre tem um “mas”, ela não é muito versátil. Se o motociclista estiver viajando longos trechos a 110 ou 120 Km/h por estradas impecáveis com postos de bom combustível a cada 200 ou 300 km não há o que reclamar. Garupa e bagagens parecem que nem existem, e o conforto é excepcional. O problema é que esse cenário é raro no Brasil, muito raro infelizmente.

Normalmente nos lugares mais pitorescos e que valem a pena visitarmos, o piso é ruim ou muito ruim, e se optarmos pelas belas estradas regionais, muito mais interessantes que as longas rodovias retas e desmatadas, o peso da moto e os limites da suspensão ficam muito evidentes. Se o asfalto piorar muito, pode ser sinal de queda iminente ou no mínimo um grande sufoco. Se virar terra, mesmo boa, acenda uma vela porque você vai cair… Não tente segurar os quase 400 kg com aquele cambito que você chama de perna escorregando na poeira fina não… Nem academia resolve.

Fazer um passeio pelas belas cidades do interior de Minas Gerais, com paralelepípedos antigos, ruas estreitas, e ladeiras, muitas ladeiras, é um inferno por causa do peso e das suspensões. Mesmo mais leve, uma moto Custom menor também sofre muito por causa das suspensões. Em Tiradentes – MG há um bar que fica ao lado de uma ponte, que por sua vez tem na rampa de descida um belo buraco com uma ondulação em seguida. É triste ficar por lá tomando uma cachaça, enquanto os incautos motociclistas descem a ponte e “blam” batem com o fundo das suas motos na tal lombada. Lá vem aquela Harley linda e reluzente pela ponte e … “blam” bate o fundo no chão.

A suspensão traseira dessas motos “custom” é simplesmente horrível, e não tem como resolver porque faz parte do estilo ter aquele rabo “quase” duro. Cansado de sofrer, e consciente que não vou viajar por belas e rápidas rodovias que justifiquem manter a moto, optei por vender a Harley e mudar de estilo. Parti para uma “Naked” que na verdade nem naked é, porque tem semi-carenagem. Eu acho que a Bandit 1250S se enquadra na categoria “Sport Touring” ou simplesmente “standard” como a Suzuki anuncia em seu site. Ou seja, moto com cara de moto como um amigo já escreveu um dia.

O motor de 4 cilindros é fantástico, empurra muito mais do que o da Harley em qualquer regime de rotação. São mais de 11 kgmf de torque já em 3700 rpm, e é facílimo passar de 200 km/h em uma rapida acelerada. Mas o que realmente me impressionou foram as suspensões macias com bom curso e a leveza da moto comparada a uma Harley. A distância do solo é maior, e as suspensões absorvem muito bem até mesmo aquele quebra-molas mal projetado. Manobrar a moto em pisos ruins, como nas ladeiras de paralelepípedo das cidades mineiras, é algo trivial pra quem estava acostumado com 400kg de moto. Acabou o sofrimento que tinha com a Harley. Chego mais rápido aos destinos e surpreendentemente chego menos cansado, estranho, mas acho que o fato de ficar sempre “sentado” na Harley acaba deixando as pernas um pouco dormentes enquanto que a posição “montado” da Bandit acaba distribuindo parte do peso para as mãos, cansando menos no final das contas.

A posição de pilotagem da Bandit é bem diferente de uma esportiva, é bastante confortável e não cansa nos longos trechos de estrada. A facilidade nas manobras também reduzem bastante o cansaço nos trechos ruins, desviando dos buracos e de outras armadilhas presentes nas estradas pequenas. Sem dúvida uma moto muito mais versátil.

É a moto perfeita? Não, não existe moto perfeita “para todos”, existem motos mais adequadas do que outras para aquilo que o motociclista vai predominantemente fazer. Se é para uso urbano, as Scooters dão um show! Viajar por longas estradas perfeitamente pavimentadas chegando a cidades urbanizadas e com estacionamento fácil, beleza, é o cenário ideal para a Harley. Mas se o trajeto requer algo mais flexível, com mais facilidade de adaptação a qualquer situação de terreno, as opções recaem nas médias e Big-Trails (quando a predominância for pisos ruins) e, por incrível que pareça, nas “motos com cara de moto” como a série Bandit ou a extinta CB1300.

Afinal, e as Customs? Bom, na minha opinião, é um estilo importado dos americanos que é perfeito para as rodovias de lá. São lindas, cheia de cromados, mas são muito especializadas. Falta versatilidade para essas motos, por causa do peso e da posição de pilotagem ela se torna muito cansativa quando o terreno não é perfeito. As suspensões traseiras, vítimas do estilo “rabo duro” são as principais responsáveis por transferir todas as irregularidades do piso para o piloto que, coitado, está sentado em cima do seu cóccix e com as pernas lá na frente, incapazes de se levantar um pouquinho que seja para diminuir a pancada que está vindo. Sem dúvida que há regiões no Brasil que as Customs se adaptam muito bem, como nas belas rodovias de SP, e suas belas cidades turísticas, mas não podemos esquecer que o estado de SP não é a regra, e sim a exceção em termos de infra-estrutura viária.

Se alguém afirmar que moto customs são confortáveis, retruque na hora: Isso é um mito, uma lenda urbana que espalha na mesma velocidade que seus proprietários defendem as virtudes desse tipo de moto. Não caia nessa.

9 COMENTÁRIOS

  1. Sinceramente, tenho que discordar. Não costumo comentar em tópicos assim, mas tenho que dizer que PRA MIM a custom é puro conforto. Testei vários estilos da Sahara, passando pelas esportivas e chegando na minha Boulevard m800, versatilidade sem dúvida deveria vir ali antes do M, ando com ela na cidade , é na estrada, e pego até um chão de terra. Vou tranquilo e com conforto. Mas é o que eu falei. Pra mim é assim, por isso não da pra generalizar que o conforto das custom é mito.

  2. Eu tenho 21 anos, e estou pensando em comprar uma Harley, estilo antigo classico tipo a Heritage , o problema é que eu a usaria apenas para a cidade e pouca distancia , viagens sempre conscientes não passaria de 60 na cidade , mais não tenho experiencia com motos, e gostaria da sua opinião sobre , andar trajetos curtos com uma Harley só por status hahahaha se ela é confortavel e da pra andar tranquilamente , fico no aguardo da resposta obrigado .

  3. Concordo em tudo, e não é a toa que estou comprando uma Bandit 1250s essa semana…

    Mas fico triste, pois tinha que ter um jeito de deixar as customs mais confortáveis, sem precisar comprar as maiores, eu acho lina a 883 da harley, mas as opinioes sao sempre “treme muito”, “é muito dura”… e gosto de viajar bastante de moto, preciso de conforto e força. #bandit

  4. O que não me conformo com as custom é seu custo benefício. São projetos antiquados, tecnologia um tanto ultrapassada cujo investimento de engenharia e desenvolvimento já se pagou a décadas até (o caso as Sportster), não tem pq uma Harley ou qualquer outra custom custar tanto mais que uma Bandit 1250 por exemplo se mal têm um painel de instrumentos decente!

  5. A minha próxima moto será um Bandit 1250S isso já tenha em mente a algum tempo e compartilho com meu irmão essa mentalidade que também é uma apaixonado por motos. Mas sobre a compra da Bandit ele argumenta que a Bandit tem um visual atrasado, frente as novas tendências e que a muito tempo a Suzuki deixou de investir no mercado brasileiro e que existem melhores propostas de compra de motos na faixa de preço da Bandit. O que Paulo e os outros visitantes acham, isso é tem um pouco de verdade? Existe a possibilidade de a Bandit ser descontinuada como aconteceu com a GS500?
    Abracos.

  6. Tinha uma Yamaha XJ6 N que usava para trabalhar (Rio x Vale do Paraiba) toda semana. Troquei por uma Harley (Heritage). Devido ao horário que saio e chego ao Rio, não costumo pegar trânsito. A Harley me cansa muito menos que a Naked. Não tem comparação. Já peguei estrada ruim com a Harley (rodovia dos tropeiros) assim como já tinha pegado com a Yamaha. Nesse ponto, tem que ir bem mais devagar com a Harley o que torna a viagem mais cansativa. No geral não me arrependo. Ela só perde no trânsito urbano congestionado.
    Abços.

  7. Eu cai nesse conto.
    vou todo dia de niteroi até o RJ na minha midnight 950. Estou com ela a menos de um ano e estou pagando para comprarem ela de mim.

    nós não temos buracos no asfalto, nós temos buracos feitos de asfalto! Quero trocar pra ontem em uma v-strom ou uma fz6-S, fico na dúvida sobre a fz6 se ela vai aguentar a suspensao nesse buracos, mas custom não tem viabilidade nenhuma de ter no brasil. Se voce tiver uma custom é excelente nas rodovias, mas ao chegar na cidade DESISTA! não consigo passar a mais de 30km no paralelepipedo , estrada de terra se freiar é chão! 200 kilos saindo de lado nao adianta segurar com a perna, vai quebrar a perna e a moto!

    Custom no brasil só se for no salao duas rodas.

    abcs

  8. para alguém que está disposto a andar de moto, talvez o conforto não seja tão importante. O prazer de andar em uma Harley talvez ultrapasse a limitação do conforto. Mas quando a segurança entra na equação, me preocupa sua experiência com a Electra.
    De qualquer forma você saiu vivo não é? Chegou a cair com ela por causa desses fatores que citou, peso e pouca altura do solo?

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui


sete + = 10