Decifra-me ou devoro-te

37
1878

Fotos: Roberto Severo

É sabido nos meios mitológicos que a deusa Hera enviou uma Esfinge, um simpático bicho com cabeça e o busto de mulher, patas de leão, corpo de cão, cauda de dragão e asas de Harpias, para a entrada da cidade de Tebas. A Esfinge se punha no caminho de todos os viajantes que se aproximavam da cidade e lhes formulava um enigma. Quem errava era deglutido pela besta!

Um cara chamado Édipo, famoso motociclista da redondeza, chegou à Esfinge que lhe propôs o enigma:

“O que durante a manhã tem quatro pernas, ao meio-dia tem duas, às três da tarde tem duas rodas e à noite tem três?”

Encurtando a história, Édipo acertou. A Esfinge se estrebuchou todinha e, conforme previsto, se jogou em um abismo.

ZX-10R – A Esfinge de Hera

Nos anos 2000, algum engenheiro japonês sonhou com Harpias, Édipo, e Esfinges, evoluiu o conceito e lançou a ZX-10R. Tirando a loucura inverossímil do colunista, o resto é verdade, ou melhor, mitologia. Hoje, na minha opinião, o grande enigma não diz respeito à criação da Kawasaki, mas sim da utilização dela.

Antes de mais nada, vale lembrar que as impressões obtidas foram propositalmente definidas para ser a de um piloto experiente, porém comum (99,9% dos consumidores). Ou seja, fora das pistas. E refere-se ao modelo 2011 da verdona. Então vamos preparar o ânimo e conferir algumas especificações:

200hp de potência; 175kg. (seca e sem piloto); 0-100 em menos de 3 segundos; 0-299 em menos de 13 segundos; A vida começa aos 6 mil giros; Controle de tração e potência; Freios com o inovador KIBS (ABS) dianteiros duplos; Design afiadíssimo e funcional (vide tomada de ar frontal).

Então, meu caro leitor, não é uma questão de qualidade técnica, mas sim de conceito. Onde e em que conceito colocar este mix perfeito?

Não vamos mentir para nós mesmos. A questão aqui é achar uma boa desculpa para comprar a moto. É um processo mental de auto-convencimento ou racionalização. Em português, claro, é convencer-se que não se vive sem algo que é evidentemente (e deliciosamente) supérfluo.

Minhas impressões empoleiram aquele “demoninho” falante no seu ombro esquerdo, o “Capeta da Racionalização”. Bora lá, vou tentar ajudar:

Encapete ou Amance a Fera

S-KTRC

A Esfinge Verde possui controle de tração (quatro posições – 1, 2, 3 e desligado). O controle é inovador e tem uma absurda tecnologia embarcada. E este eu “tive” que testar.

Por não ter um conjunto fixo de parâmetros para minimizar a perda de tração, o sistema da Kawi, também conhecido pelos íntimos de S-KTRC, tem a capacidade de ajustar o mapeamento do motor em tempo real (WOW!).

Ao invés de simplesmente cortar abruptamente o poder para resolver erros do piloto, o S-KTRC se adapta proativamente (WOW 2).

Depois de vários dias de convivência, fiz um teste no modo 1 (tração controlada) do S-KTRC. Em linha reta, despejei potência (a moto está em linha reta e as rodas estão rodando em sincronia, acelerou rapidamente, manteve sempre a roda da frente no chão e o guidão equilibrado).

Em terceira marcha, a uns 110km/h, reduzi abruptamente para segunda e comecei a fazer uma curva bem aberta já com o coração no esôfago (a moto deu uma forte tremida e por uma fração de segundo perdeu a traseira dando aquele início de rebolada). Imediatamente o “espírito” moto (acho que em conjunto do meu anjo da guarda), “interferiu” soltando a roda traseira, e algo mágico/tecnológico aconteceu. Tudo voltou ao equilíbrio perfeito, inclusive o meu coração, que desceu da garganta.

Além disso, que já parece ficção científica, o controle de tração permite loucurinhas deliberadas em alguma situações (é bom deixar claro que NÃO testei e nem recomendo fora de locais apropriados), como o “wheeling”, “power slide” e fritar o pneu traseiro. Consegue isso fazendo uma leitura extremamente rápida do equipamento. Este conjunto de informações diz que o cara em cima dela não está em apuros, simplesmente tem parafusos a menos.

Mas, se no meio de alguma manobra a moto perceber que está acontecendo alguma M****, a tecnologia novamente interfere e ajusta o equipamento para que o piloto não vire asfalto. Deliberadamente não passei por isso. Mas depois da rebolada e ajeitada da Ninja, comecei a acreditar em Papai Noel. Ele é verde e tem duas rodas.

Controle de potência

L = Low – 60% da potência sempre – recomendado para terrenos instáveis (molhado, areia, asfalto liso).

M = Middle (variável) – 75% da potência, mas permite chegar a picos na curva de aceleração dependendo da rotação, posição e troca de marchas. Testei e funciona maravilhosamente bem. Fui a 90km/h em primeira marcha e levantei para segunda em linha reta. A moto não poupa a física e dá um salto impressionante. Se você estiver em uma curva, notoriamente a moto coloca potência progressivamente conforme se levanta o pedal do câmbio.

F = Full – Entrega toda a potência sem restrições (yeaaaah!) – recomendado para pilotos com todos os parafusos bem apertados.

O controle de potência pode ser alterado em tempo real, ou seja, durante a pilotagem, entregando ao piloto um pouco do controle da besta. O ajuste da potência está intimamente ligado ao controle de tração (0-3). Dos sete dias que pilotei, cinco deles foram em 2/F (2 de tração e “Full” de potência), ou seja, a fera quase solta da coleira.

Utilizei a posição 3/L dos controles quando fui pego de surpresa pela chuvarada na estrada. Amigo, não tem conversa. Use sem pudor e sem parar! A verdona continua rápida e segura, mesmo com São Pedro na garupa.

Estes controles são executados com o simples movimento do seu polegar esquerdo.

Dos 17 litros de combustível do tanque quatro são de reserva. Não há medidor de consumo. Você é surpreendido com uma luz amarela no painel e a palavra “Fuel” piscando freneticamente no display.

KIBS

Um pouco mais de tecnologia surpreendente. É daquelas coisas que ou você acredita em Papai Noel verde ou esquece. E fiz questão de verificar em alguns fóruns e não somente nos sites oficiais da Ninja.

Também investi tempo olhando para o sistema por minutos a fio tentando entender o que leva o que, aonde, no freio dianteiro, e decifrar alguma coisa. É complexo e fascinante. Sabe aquela cara de criança olhando o mágico? Pois é, vamos lá. Além de fazer o que a maioria dos sistemas de ABS fazem, monitorando a pressão do fluído de freio das pinças dianteiras, o “green team” diz que o sistema vai além.

Com o sistema de injeção alimentando o ABS, adicionando informações sobre a atuação da embreagem, posição do câmbio, giro do motor, e posição do acelerador, o sistema tem a capacidade de estabilizar toda a moto evitando RL (Rear Lifting), ou levantar a roda traseira, quando o freio dianteiro é insanamente exigido no meio de uma redução abrupta. Se a roda traseira começa a perder o chão, o sistema alivia a pressão do freio dianteiro fazendo a moto se manter no chão e o piloto voltar a respirar. Obviamente, o ABS se presta a coisas “basiquinhas”, como não bloquear a roda dianteira. Testei “grampear” o freio dianteiro em baixas velocidades além de algumas necessidades da vida real no trânsito maluco de São Paulo, e tudo pareceu se orquestrar muito bem.

Se não bastasse tudo isso, alguns detalhes funcionais valem menção: Uma nova pre-câmara do escapamento melhora o equilíbrio geral da máquina e diminuindo o tamanho da ponteira.

A tomada de ar é muito efetiva quando alcançamos 98 graus Celsius no trânsito. Foi em questão de poucos quarteirões para o motor voltar a 88 graus. Bem, além de funcional é um dos pontos altos no design da máquina. Quando estacionava, fazia questão de colocar a ignição em modo parking para que a luz branca superior da tomada de ar ficasse acesa à noite. Coisa de criança, mas dava prazer de olhar. Simples assim!

O câmbio me pareceu um pouco duro. Em baixa velocidade, difícil de manipular e de engatar. Às vezes era um sobe e desce maluco da haste do câmbio, até acertar a posição do neutro em um farol.

O Painel tem muita informação por centímetro quadrado. Mas está tudo lá (menos combustível), e ainda há dois botões na esquerda para trocar as informações. O indicador de rotação/giros, que é importantíssimo em uma moto desta natureza, foi resolvido brilhantemente (de forma literal) pela Kawasaki. É formado por uma sequência de LEDs coloridos que vão do verde ao vermelho, cortam a parte superior painel formando um arco que atravessa de um lado a outro da bolha. E como disse, a vida aqui começa aos 6.000 rpm. Neste ponto a moto ganha nova vida e fica nervosa de vez.

Alguns motivos para você se convencer (e possivelmente algumas outras pessoas em casa) de que você PRECISA da moto. Com a Palavra, o capeta do ombro esquerdo:

Ultrapassagens, precisas, rapidíssimas, com segurança e equilíbrio. Você pensa, você faz, e rápido;

Absurda sensação de controle da máquina em alta rotação. Depois de um certo tempo, parece estúpido, mas você percebe que a moto “quer” te proteger de desvios e erros de pilotagem;

Tecnologia embarcada que aumenta a segurança e a experiência de pilotar.

Argumentos que talvez você escute vindo do ombro direito (e possivelmente de outras pessoas em casa). Com a palavra, o ser angelical empoleirado no ombro oposto:

– Quanto vai ficar este seguro meu nobre?

– Muito caro. O brinquedo é visado e isso afeta diretamente na fortuna cobrada pelo seguro.

– Você vai se matar, você não tem juízo!

– Se você não tiver juízo, você vai tentar involuntariamente se matar várias vezes por passeio.

– Esta é a sua primeira moto, não podia comprar algo menor?

– Sim, apesar de ser tecnicamente precisa, a pilotagem não é trivial, a Esfinge é difícil, é muito “race”, pede pista, quase não esterça, se tiver que corrigir uma bobeada em baixa velocidade vai penar, e mesmo rezando, é grande a chance de ver o mundo de lado e mais próximo do nível do mar. Se acelerar muito, no modo “besta solta”, vai contar as nuvens do céu e possivelmente ver o mundo invertido com as costas no chão.

Conclusão

Fiz o teste da moto basicamente 50% na estrada e 50% no trânsito urbano. Como podem verificar na tabela, ela não é tão beberrona, mesmo com seus 4 cilindros em linha.

Observações quanto ao quadro de notas: As notas foram dadas em um contexto urbano de utilização. Por que não tem 10? Antes que haja animosidades, vale uma explicação para os 9,5: não dou nota dez porque senão assumiria que não há espaço para melhora, o que sabemos não ser verdade. Sempre há! E sempre nos surpreendemos! Fora isso, o negócio é verificar de perto a mais nova moto da linha das Ninjas, a linha que popularizou e que há um bom tempo é paradigma de motos rápidas.

A propósito, a resposta de Édipo ao enigma da Esfinge foi: “O Homem”.

Keep Riding!

37 COMENTÁRIOS

  1. Parabéns pelo texto, final do ano passado comprei uma que durou menos de 24h, sofri uma queda e PT na maquina, depois optei pela compra de um BMW, posso afirma que lendo seu texto me fez pensar novamente na verdinha…

    Abraço,

  2. Tenho uma Zx-10 2012 – uma máquina excelente em dirigibilidade e agilidade, fora a potencia que é abrupta te dando o controle total da ação. Não tenho queixas sobre ela, é só elogios. Foi um excelente investimento que fiz e recomendo a todos!

    • Fernando,

      bom saber que você está feliz com a máquina, realmente minha impressão é que ao longo prazo ela entrega o que promete, ficamos com a moto somente 10 dias e seu depoimento só agrega aos leitores.

      Obrigado, e continue nos lendo!

      Roberto Severo

  3. Roberto, seu texto aliado as informações técnicas foram perfeitas,parabéns pelas linhas escritas e pelo conhecimento da máquina.

  4. Otimo texto! Fugiu do comum e mostrou bem o que tinha de ser mostrado. Tenho uma ninja 250, mas piro mesmo é na zx6, as kawa pra mim sao as melhores!

  5. Cara, parabéns pelo texto. Ficou bem legal o modo como vc transmitiu as informações sem ficar com um texto muito “travadão”, é sempre bom ler algo descontraído.

    • Obrigado Th. Adriano,

      O principal ofensor do preço é a carga de impostos, sei que é chover no molhado, mas um dia, quem sabe o governo baixa isso!

      Abraço,

      Roberto Severo

  6. Roberto, bela história associada com informações técnicas!

    Vou passar em uma concessionário Kawasaki e conferir a “Esfinge” de perto!

    Parabéns pelo texto.

    G.

  7. Obrigado pelo texto e pelo papai noel green. Se tivesse R$, com certeza você me faria comprá-la. Parabens KAWASAKI. Parabens Roberto.

    • Fernando,

      Quem sabe o Papai Noel green, qualquer dia destes não vem com um saco cheio de verdinhas… se é que me entende 🙂

      Abraço,

      Roberto Severo

  8. Excelente review!!!!
    FINALMENTE um site que se preza à fazer uma análise de esportiva utilizada no trânsito!!!!
    Eu aposto de 95% dos donos de esportivas NÃO participam regularmente de trackdays em autódromos, o que torna virtualmente inútil as dezenas de milhares de testes que só contam em quantos décimos de segundo uma moto é “melhor” que a outra.

    Parabéns pelo relato bem humorado! Passou as impressões de forma clara e gostei muito do conceito do anjinho e capetinha nos ombros hehe.

    • Ronaldo,

      A ideia foi justamente foi esta, mostrar porque (ou porque não) comprar uma moto desta categoria pelo piloto comum, grupo este em qual me encaixo.

      Obrigado pelo comentário,

      Abraço

      Roberto Severo

    • Ramiro,

      é possível, concordo que o último lançamento é sempre mais “brilhante”, e isso vale para tudo, celular, computadores, motos. E é por isso que nunca dou nota dez, há sempre uma inovação ou melhoria para nos surpreender. Que bom!

      Abraço,

      Roberto

    • Melhor então comprar uma Hayabusa que não muda a 10 anos? A única crítica que tenho a Kawasaki a qual não concordo é com a chegada de modelos do ano as unidades anteriores tem seu valor muito depreciado pela própria concessionária. Quero dizer vc compra uma ZX10 2012 hoje e amanhã sai a 2013 igualzinha mas com a diferença de ano faz com que a 2012 zero kilometro mas pareça uma moto 2009 na hora da venda. Acho que por respeito ao consumidor a Kawasaki teria que estipular um preço e arcar com as consequências e não ficar flutuando e variando conforme as vendas… Isso na minha opnião acabou com a Suzuki e não entendo por que eles atiram no próprio pé…

  9. Acho interessante como essa moto lá fora custa aproximadamente R$:26,500…
    Vem para o Brasil custando R$:59,990(atualmente), no final o preço sobe um bucadinho né?
    Lucros absurdos para os caras, “por isso que o Brasil ta onde ta”.

  10. bom texto, muito engraçado e bem escrito.
    Cumpre salientar, ademais, que o preço abaixou muito em menos de 1 ano… a chance de comprar uma 1000cc está mais acessível agora… apesar deu preferir uma 848 (ducati) ou uma BMW dou o braço a torcer nessa zx10 (pelo preço).

    • caroAmigo,

      nunca pilotei uma Ducati 848, mas tive a oportunidade de andar na BMW (RR), ela é realmente mais confortável do que a ZX10r, mas no quesito “soltar fogo pelas ventas” a ZX10R ronca mais alto, como disse, ela é muito “race”. Vai do gosto, você vai estar bem servido por qualquer uma delas.

      Abraço,

      Roberto

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui


7 − quatro =