CBR 600F – Heidi, a gata que engoliu uma leoa

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Fotos: Roberto Severo

Nossa história começa em 1987, quando a Honda resolveu popularizar uma moto que fosse ótima para a estrada aberta, mas que tivesse uma pilotagem fácil e prazerosa, assim nasceu o projeto da CBR 600F, no nosso caso a Heidi, filha da Honda, prima de segundo grau da interessante Suzy, e igualmenete com ascendência japonesa.

As ancestrais da Heidi denunciam sua linhagem, pois, no passado, a performance em pista parece ter tido prioridade sobre a funcionalidade na estrada, e isso se refletiu diretamente na CBR 600F Sport, lançada em 2001. A evolução ficaria completa, em 2003, com a introdução da nova CBR 600RR. Uma moto que teve como missão ter o domínio das pistas mundiais. Mas vamos falar hoje sobre o modelo F.

Vale dizer também que a dona Honda, lá nos idos dos anos 90, criou um conceito de “controle total” que, trocando em miúdos, dizia o seguinte em seu manifesto: “Se o piloto quer, a moto tem que fazer. E com excelência”. Desconte o marketing associado, traga a teoria para a prática e o que sobra é uma moto que tenta se posicionar entre as ruas e as pistas, entre uma “street” e uma “superesportiva”, caindo mais para o lado desta última. Mas ela fica longe do drama do pato, que é um bicho que nada, mas não nada direito, que voa, mas não voa direito, anda e não anda direito. Faz tudo, mas não faz nada! Ao contrário, a Heidi se vira a contento: nada bem, mas não é um golfinho, voa bem mas não é uma águia, anda bem, mas não é… sei lá, uma Gisele Bündchen na passarela! Comparada com outras concorrentes, no design a CBR sai na frente. Evoluiu com o tempo, e hoje temos uma moto moderna e muito bem acabada nos detalhes.


Freios, ahhhhh freios… não me canso de voltar nesta mesma questão, e repito: para motos com alta performance, o ABS deveria ser O-BRI-GA-TÓ-RIO (ponto), mas mesmo assim os freios não fazem feio e atendem bem ao comando da mão e do pé direito mesmo na versão “standard”. Este é um dos principais diferenciais desta moto, ela freia muito bem. A versão sem ABS possui duplos dianteiros flutuantes de 296 mm e cáliper de dois pistões. O traseiro, é equipado com disco simples de 240 mm com cáliper de pistão simples. Já a versão com freios Combined ABS (C-ABS) possui na dianteira discos duplos dianteiros flutuantes de 296 mm, com cáliper de três pistões. Na traseira, disco simples de 240 mm com cáliper de pistão simples.

Ainda sobre freios: o C-ABS da Honda alia benefícios do ABS (Antilock Brake System) e do CBS (Combined Brake System). O ABS evita o travamento das rodas, controlando a moto em emergências e permitindo que o piloto ainda tenha controle da direção, e o CBS distribui a frenagem entre as rodas dianteira e traseira.

Continuando a falar em segurança, mas agora contra os gatunos, a CBR 600F possui o HISS, desenvolvido pela própria Honda, Que aumenta a segurança, principalmente para quem precisa estacionar a moto lugares públicos, ou na rua. O sistema de identificação por meio de chip na chave somente permite que a original possa acionar a ignição.

No quesito músculos, a Heidi se mostrou potente na estrada (não é pata, não) com seus 102 cavalos galopantes, 16 válvulas e refrigeração líquida. Aceleração muito boa, a moto “pula” mesmo em marchas mais altas deixando a frente leve, mas não sem controle, basta dar uma olhada nos itens de desempenho mais adiante no texto.

Na loucura urbana, tem agilidade permitindo ultrapassagens com segurança (também não é pata). Apesar da proposta da Honda ser uma esportiva mansa, a Heidi mostra os dentes quando passa dos 7500 rpm, aí meu amigo, ela abre a boca e mostra a leoa lá dentro. Principalmente em primeira, um descuido no acelerador, e a moto levanta a roda dianteira, fácil, fácil.

O câmbio talvez seja o ponto mais alto deste modelo, seguindo a tradição Honda, muito bom mesmo, não houve sequer uma marcha que tenha escapado ou que não “entrou”, e não preciso dizer que a sexta marcha é um alívio na estrada, mas mesmo assim a moto responde bem aos comandos do piloto, tendo uma retomada excelente. Para ir de 100 km/h a 130 km/h em apenas 4,4 segundos (tabela abaixo) precisa de muita aceleração, além de um conjunto afinado de motor+câmbio.

No primeiro tanque, usei a moto de forma tranquila, sem passar muito dos 5000rpm, e ela fez 22km/l, já no segundo tanque, eu fui ao extremo oposto, alta rotação, acima dos 4000 sempre, e fez 18km/l.


Pilotar a CBR no dia-a-dia não chega a incomodar de forma nenhuma, mas por muitas vezes me ocorreu “puxa, poderia ser uma Hornet!” Ou “Uma Hornet se sairia melhor nestas situações de trânsito”. Extrapolando para outras montadoras, impossível não lembrar da excelente e ágil XJ6 F da Yamaha e a postura mais confortável da Suzuki GSX  650F.

Vamos direto ao ponto: assim como falei da querida Suzy, a Suzuki GSX650F, preciso dizer que a Heidi é uma Hornet carenada. Mesmo aparentando ser outra moto, a CBR 600F nasceu de uma costela da Hornet. As duas são basicamente irmãs gêmeas separadas na adolescência. Motor, quadro, suspensões e outras características básicas são iguais. A diferença mais evidente está na carenagem, incluindo o conjunto óptico dianteiro, retrovisores e guidão (semi-guidão). Uma está vestida para ir ao baile, e a outra para a balada. Uma é halterofilista, a outra é velocista, embora a velocista levante pesos e a halterofilista corra bem.

Chega de lero-lero e deixa eu rabiscar algumas comparações que possam auxiliar os prezados leitores que ainda estão em cima do muro… vou para Hornet? Vou para a Heidi? Confira:

Posição de pilotagem: Pilotar a Hornet (o mesmo e válido para a CB 1000) por um longo período e acima de determinada velocidade pode se tornar uma tarefa um pouco desconfortável, além da aerodinâmica, há sempre o risco de levar mosquitos, pedras e urubus na viseira. Mas para o trânsito a postura na Hornet é mais agradável, basta dizer que ao parar no farol, poucos motociclistas montados na CBR ficam posicionados com as duas mãos no semi-guidão.

Peso: A Heidi tem 3kg a mais do que a “peladona”

Garupa: olha amigo, se você carrega garupa, e principalmente se a sua garupa é uma peça importante para a decisão da compra da moto (se é que me entende…), essa característica pode ser fundamental para a optar pela Hornet, na CBR a garupa sofre principalmente em trechos longos e ainda não possui alças laterais. Agora, é uma poltrona se comparada com uma speed de “carreira”, aguardem a análise da Fireblade, a aniquiladora de garupas. A tônica é quase matemática: quanto mais esportividade, menos conforto.


Para os engenheiros de plantão, esta é a parte que a gente recebe, acredita e publica vindo da montadora:

Diâmetro/curso (mm): 67/42,5
Taxa de compressão: 12:1
Potência (cv a rpm): 102 a 12000
Torque (mkgf a rpm) (G): 6,53 a 10500

Suspensão: Dianteira: telescópica invertida com 41mm de diâmetro com regulagens de pré-carga, compressão e extensão e 120 mm de curso. Traseira: monoamortecida, com regulagem de pré-carga de mola e extensão, e 128mm de curso

Pneus:
Dianteiro: 120/70-17
Traseiro: 180/55-17

Dimensões:
Comprimento: 215cm
Altura/largura: 115,2cm/74,2cm
Entre-eixos: 143,7cm
Peso seco: 191kg (196kg com C-ABS)
Vão-livre: 13,5cm
Altura do assento (cm) 80,3
Tanque: 18l

Desempenho:
Faz 400 metros em 12 segundos chegando a uma velocidade final neste trecho de 187 km/h.
0-100 km/h: 3,9s
De 40 a 70 km/h em 3ª: 3,2s
De 60 a 90 km/h em 4ª 3,1s
De 80 a 110 km/h em 5ª 3,9s
De 100 a 130 km/h em 6ª 4,4s

Enfim, a CBR600F é uma gata que engoliu uma leoa, e fez curso intensivo para ser leoa. Aprendeu bem, assumiu algumas características, ruge, mas mesmo assim, nasceu gata. Se você não pretende ter o trabalho diário de domar uma leoa, levar umas unhadas, patadas, e quiça, mordidas, talvez seja melhor assim! A Heidi é uma boa compra, afinal o “F”, que já significou “Four” para motos de quatro cilíndros, aqui na CBR600F significa Diversão (“Fun”).

47 COMENTÁRIOS

    • Oi Luciano,

      é o seguinte, cada moto em uma personalidade e associo esta personalidade a nomes que acho que são relacionados… Não tem uma explicação 100% racional. 🙂

      Abraço,

      Roberto Severo

  1. A moto é excelente, bonita e confortável de andar. O comentário negativo fica para os retrovisores, que deveriam ser com pisca, iguais os da cbr 1000 rr fireblade, sem as setas da carenagem, que tiram a beleza da moto.

  2. honda e a melhor moto do mundo ninguem ganha dela!!!
    nem kawazaki,suzuki,bmw..etc.

    todos os comparativos so da honda!! ksksk pode ser 600 com 1000, se for honda for 600 ganha!

  3. Roberto, parabéns pela matéria…gostei e concordo com o q vc escreveu sobre a moto.
    Recebi a minha haidi branca à duas semanas e comprei no escuro, sem montar em nenhuma,só vendo fotos,,,saí d uma tornado 250cc e fui direto p/ CBR 600f… Qdo tirei ela da loja e montei pela primeira vez nela, me impresionei muito, pq parecia q eu ja conhecia a moto, que ja era minha faz tempo, realmente ela é muito segura e fika nas suas maos….e qdo vc pede ela acelera…ela me surpreendeu, eu naum esperava tudo isso dela…to muito satisfeito com a leoa…hehe
    abrass e obrigado pelas matérias boas aí..

    • Caro Elvar,

      muito obrigado pelo seu depoimento, importantíssimo para que tem uma moto de até 250cc e quer ir para uma carenada maior.

      A moto realmente responde muito bem aos comandos, e tem uma certa docilidade no trato! Parabéns pela aquisição!

      Abrax,

      Roberto Severo

  4. Roberto,primeiramente parabéns pela matéria, realmente muito profissional. Cara, não deixo de pensar que o preço da CBRF ABS se aproxima muito do preço da CB 1000 básica. Tudo bem que são categorias distintas, mas a diferença de preço, potência e torque nos faz pensar muito no caso. Em relação à posição do garupa das duas, e do custo de manutenção há muita diferença? Tenho pensado seriamente nessas duas motos mas não consigo decidir a compra. Agradeço desde já. Abraço.
    Jose

    Graccho Cardoso-SE

    • José,

      muito obrigado pelo comentário, e vamos às dúvidas:

      – Sim, a opção por uma CB1000 ou uma CBR600, é uma questão de estilo, a garupa da primeira é melhor e a postura de pilotagem, idem.

      – O custo de manutenção é semelhante. Pense na utilização. Visite as mocinhas na concessionária, pergunte, encha o saco do vendedor, peça test-ride, não compre com dúvidas.

      Abraço,

      Roberto Severo

    • Qual seu uso? Estrada ou cidade? Se for para andar em velocidades acima de 140 esquece naked, vai de CBRF mesmo, além da carenagem ainda tem o bônus do ABS.

      A garupa discordo do colega acima, da CBRF é melhor que da CB1000.

      • Vi a CB1000 na concessionária e a garupa parece apenas um lenço forrado sobre a moto. Não tive uma boa impressão não. Penso que ter uma moto assim para andar sozinho não é uma idéia legal. Antes vi a CBRF e gostei da maciez da espuma do banco. Fiquei na duvida entre as duas. Valeu pelo comentario cara.

  5. O Hiss da Honda já virou piada pronta, hoje um gatuno chega ao lado de uma moto dessa, abre a tampinha lateral e espeta um modulo chipado e sai feliz da vida…

    • TexTexano,

      Claro, que enquanto tem 10 pessoas pensando em segurança, há 10000 pensando em quebrar está segurança. Isso me lembra de uma frase famosa de um escritor: “Sabe por que é melhor ler os clássicos da literatura?”, resposta: “Porque é melhor do que não lê-los”. Sabe porque é melhor ter o HISS? …

      Abração e continue com a gente!

      Roberto Severo

  6. Parabens Roberto Severo pela excelente mat[ria sobre a CBR600F que em todas suas ediçôes, sempre foi um sucesso. A Honda CBR600F nas mais variadas versôes desde a primeira de 1987 denominada Honda CBR600F1 Hurricane, sempre foi um “Best Seller”.
    Se vc qualquer hora quiser fazer um comparativo, sou um dos poucos no Brasil que possui um modelo de 1989 e uma F3 de 1998.
    Qualuer coisa é só entrar em contato que será um prazer mostrar as motos.
    Abraço
    Ricardo – Santo André, SP

  7. O best riders deve estar orgulhoso do seu colunista.
    Os comentários estão cada vez melhores, muito precisos e sempre com uma bela pitada de humor ( a comparação com o pato foi magnifica ).
    Parabens a todos.

    • Walison,

      muito obrigado pelo comentário, realmente a “japonesa peladona” a.k.a. Hornet é bastante versátil mesmo. É gosto mesmo!

      Abração,

      Roberto Severo

  8. êêêê vontade…
    Roberto, 600f é melhor e mais estilosa que a hornet, sem mais rapaiz. Nao põem minhocas ae na cabeça dos leitores!! hahah
    Agora esperando a hayabusa/fireblade!!
    Abraços

    • Boas caro Michel,

      é verdade, tudo é uma questão de gosto e de utilização… A Fireblade já está nos finalmentes! Aguarde companheiro!

      Abraço,

      Roberto Severo

    • Boas DVC,

      sim, e vai por mim, vale a pena espremer a conta bancária e optar pelo ABS, até porque a diferença diluída em um financiamento pode ser suave.

      Abraço,

      Roberto Severo

  9. Belo texto. Todos os textos aqui no Best Riders deveriam ser assim!
    Roberto, vale só uma correção: na tabela ps valores estão iguais para a versão com e sem ABS.
    Abraço!

  10. Legal a reportagem!

    Tenho uma CBRF ABS, só não concordo com a garupa, pois a garupa é idêntica à Hornet. A posição das pedaleiras, tudo é igual à Hornet. Alças garupa fêmea não usa. Esta garupa é excelente pois as pedaleiras são baixas, mas para viagens longas (acima de 3 horas rodando) é aconselhável uma almofada de gel ou algo do gênero.

    A dica de ouro para ensinar à garupa é que nas frenagens deve-se apoiar a mão no tanque para não fazer peso sobre o piloto, além de evitar as capacetadas na nuca.

    A posição de pilotagem da CBRF é muito confortável, principalmente para quem tem problema na lombar, ou seja, o peso vai mais distribuído entre braços/pernas/bunda aliviando a coluna. Neste caso ela é mais confortável que a Hornet, mesmo que não tivesse carenagem.

    Os semi-guidons incrementam o visual on-board, perde-se aquela cara de gambiarra que a Suzuki GSXF650 tem de ser uma naked travestida com um guidãozão cromado destoando de uma moto carenada.

    [ ]’s

    • Olá Quati,

      Muitíssimo obrigado por compartilhar suas opiniões baseadas na sua experiencia com a Heidi em relação ao conforto. Realmente relevante! Concordo que o acabamento dela é excelente.

      Abração,

      Roberto Severo

  11. Roberto Severo,
    Parabéns pela matéria da Heidi. Um dia vou ter uma…
    Eu gostaria de fazer duas perguntas?
    Considerando a tabela Equipamentos:
    1) Podemos considerar que a suspensão traseira é regulável?
    (já que ela tem 2 regulagens – a Tensão da mola e a Regulagem da ação do amortecedor)
    2) Podemos considerar que o sistema HISS é um anti-furto eletrônico?
    (uma vez que o próprio texto diz que “[…] a CBR 600F possui o HISS, desenvolvido pela própria Honda, Que aumenta a segurança, principalmente para quem precisa estacionar a moto lugares públicos, ou na rua. O sistema de identificação por meio de chip na chave somente permite que a original possa acionar a ignição.”)
    Abraços e parabéns à equipe Best Riders.

    • Olá Maurício,

      obrigado pelo comentário, a resposta é _sim_, a suspensão traseira tem ajuste de pré-carga configurável pelo piloto. Veja este link com algumas previsões que se concretizaram ainda do ano passado (2011) – http://bestriders.com.br/blog/2011/05/03/assim-deve-ser-a-proxima-geracao-da-honda-cbr-600rr/

      HISS significa Honda Ignition Security System. O objetivo aqui é permitir apenas que a chave codificada acione o motor, protegendo o motociclista contra tentativa de roubo/furto com chave copiada ou mestra. Todo este sistema é gerenciado pelo módulo de ignição/injeção (na linha CBR). Utilizando a chave original (codificada), o módulo envia um sinal que identifica a peça original e aciona a ignição. Claro que isso mitiga o problema, mas se o gatuno encostar com uma Kombi ao lado e jogar a moto para dentro, não há H.I.S.S. que segure!

      abração,

      Roberto Severo

  12. Passei, tive uma hornet e definitivamente acho esta moto horrível, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, jeito de SS mas coração médio, qual o sentido, média de consumo de combustível, ja vi comentários de 600 RR fazendo 20Km/l andando na boa! Lembrando Kawa tah matando a pau só peca no pós venda, são tão boas ou melhores do que a Honda. Abraço galera!

    • Juliano,

      obrigado pelo comentário, é bom saber a opinião de alguém que conviveu com a Hornet no dia-a-dia. Concordo que para a proposta da moto, a garupa não é das piores da categoria, assim como a da Suzy (GSX650)… Aguarde a resenha da Fireblade quanto a garupas.

      Abração,

      Roberto Severo

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