50 Tons de Cinza – Parte II

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Anteriormente visto em 50 tons de Cinza:

- Em Cinzelândia, os Espaciotosos, objetos de quatro rodas, reinavam em absoluto, sem a menor necessidade de qualquer outro meio de transporte
- Galileu Jobs criou um invento de duas rodas, as Tomociclas e apresentou a comunidade Cinzelanteza
- Apesar de entender o motivador da experiência, o Rei considerou a invenção uma afronta à segurança e mandou nosso Galileu para prisão.

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Nas masmorras de Cinzelândia, Galileu recebeu a ilustre visita do Rei.

- Galileu, Galileu, como você se meteu nessa… Fazer aquele anúncio em praça pública! – Começou o Rei ao entrar na cela do inventor.

Claro que Galileu, um mestre do pensamento rápido, durante sua forçada estadia na prisão, já havia começado a matutar como se safar da situação e não abrir mão de seu invento, ou pelo menos de sua essência. Sem perder tempo o inventor começou a falar escolhendo bem as palavras:

200px Color icon gray 50 Tons de Cinza   Parte II- Veja Majestade, desenhei alguns novos inventos nestes dois dias, o que pode amenizar a reação da opinião pública. E mais, peço desculpas publicamente por ter apresentado algo pela metade e vossa majestade através do conselheiro real poderia se beneficiar de ter tido esta idéia! O que acha?

O Rei pensativo, olhou os desenhos de Galileu, leu as anotações, considerou, matutou, sentou em um banco… E Galileu continuou:

- Majestade desta forma, poderíamos realmente instaurar a zona cinzenta no pensamento dos Cinzelandeses. E ainda há espaço para que o vossa Majestade saia ganhando. Reflita…

- Certo! Vamos seguir o seu…errrr…. nosso plano! Vou arranjar para que tudo fique coordenado da melhor forma. Aguarde!

cinza 3143 150x119 50 Tons de Cinza   Parte IIPegou os documentos de Galileu e deixou as masmorras a largos passos. Chegando ao castelo, convocou seu conselheiro às pressas. Este chegando, combinou como seria o teatro… Teatro de muitos que estariam por vir…

Reunião vai, conversa vem, e tudo estava combinado! No final da reunião o Rei recapitulou o plano:

- Muito bem caro conselheiro, diremos que Galileu apenas contou parte da história… Que apesar da aparente falta de segurança, podemos compensar isso com outros inventos… que podem até diminuir toda aquela experiência “mágica” que Galileu havia prometido… Mas que se lixe a experiência!!! Vamos ficar bem com o povo e ainda ganhar, não só com impostos sobre a Tomocicla, mas sobre todos estes novos inventos!!!

Tudo aparentemente resolvido, mas foi aí que começaram a entender o verdadeiro significado da palavra cinza

E assim foi. O Rei libertou Galileu Jobs da prisão e de novo na praça pública convocou todos para o anúncio dos “complementos” da Tomocicla.

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Galileu novamente no local de sua prisão anterior, começou a apresentação sob os desconfiados olhares da população, e os inventos eram os seguintes:

Para o corpo:

Armadura de couro: algo que não inibia tanto os movimentos e protegia pouco os tomociclistas

Armadura de metal: pesada e dificultava os movimentos mas suportava melhor a possível queda de uma Tomocicla em movimento.

Armadura de titânio: além de pesada e cara, restringia os movimentos do piloto, demorava uma hora para vestir, porém aguentava o impacto de um espaciostoso de frente a 50km/h sem que o tomociclista sofresse um arranhão.

Para a cabeça:

Casco de topo de cuca: protegia pouco, mas custava barato e não atrapalhava nada a visão do piloto, além de ser leve.

Casco inteiro: Protegia a lateral do rosto, e tinha uma viseira que poderia ser levantada. O tomociclista tinha uma ligeira perda de visão periférica…

Casco completo facial: o tomociclista teria que vestir o equipamento, dificultava um pouco o movimento da cabeça por ser pesado. A audição e a visão periférica ficavam comprometidas.

Casco Cibernético com câmeras HD: Totalmente fechado, câmeras projetavam em uma tela de cristal líquido imagens da frente e traseira da tomocicla, havia a chance de falhar caso as baterias não fossem recarregadas, custava metade do preço da tomocicla, a audição ficava comprometida, e a imagem ficava levemente distorcida por causa da lente da câmera, porém o tomociclista poderia até perder a cabeça em um “guard-rail” da estrada, mas sua cabeça poderia ser empalhada e colocada intacta na sala de visitas.

Para as mãos e pés os equipamentos seguiam a mesma linha.

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O governo também resolveu investir em infra-estrutura:

Em nome do teatro da segurança instaurado, o Rei contratou uma empreiteira para projetar um sistema de corredor especial para tomociclas com um trilho central, nomeado tomotrilho, no qual o tomociclista apenas engatava sua máquina e poderia esquecer das dificuldades e perigos de pilotar, fariam a sua viagem tranquilos escutando música e lendo revistas, somente sendo incomodados pelo vento. Mas isso poderia ser resolvido pagando-se uma taxa na hora do embarque (quando a tomocicla é engatada na cremalheira do tomotrilho). Esta taxa daria direito a uma bolha acrílica na qual tomocicla e tomociclista iriam dentro, com ar climatizado e música ambiente. Dependendo do tamanho da tomocicla, poderiam até tirar uma soneca durante a viagem.

200px Color icon gray 50 Tons de Cinza   Parte IIEntão as pessoas tinham o seguinte binômio a resolver: Experiência x Segurança, também conhecido como gestão de risco.

Imediatamente surgiram dois grandes grupos com tons e nuances diferentes de cinza:

1) Havia os que queriam Tomociclas e abririam mão de um percentual de risco em detrimento da experiência de pilotar ao ar livre.

Diziam: – “Bem, se quisesse tanta segurança em uma Tomocicla teria que vestir uma armadura, o que acabaria com a experiência, então, seria melhor comprar um Espaciostoso, e não uma Tomocicla.”

200px Color icon gray 50 Tons de Cinza   Parte II2) Finalmente havia o grupo dos que adorariam ter Tomociclas e a experiência proporcionada por elas, mas se borravam todos só em pensar na possibilidade de cair, ou de sofrer algum acidente, dado o maior risco a ser assumido

Seu discurso era: “Quero comprar uma Tomocicla mas quero ter a mesma segurança de dirigir um Espaciostoso (!). Não abro mão de minha segurança só para sentir o vento na cara! Aliás aquela inclinação da moto nas curvas me enjoa. Prefiro engatar a moto no tomotrilho e relaxar”

Sites foram criados sobre Tomociclismo e os frequentadores destes sites se digladiavam, se xingavam querendo provar que a Tomocicla da marca Marola era melhor do que a da marca Diapasão, que por sua vez era mais segura do que a marca blá, blá, blá. E quem saía ganhando nisso não era o recém-fundado Tomociclismo. E certa vez um ilustre colunista, publicou em um destes famosos sites, uma coluna com os seguintes questionamentos:

- Até que ponto temos segurança? Ou temos um grande teatro da segurança patrocinado por um Estado ausente e interessado em tudo menos segurança para as Tomociclas e Tomociclistas e que fomenta a venda de fantasias para quem quiser participar das peças capengas deste teatro?

- A melhor forma de não sofrer um acidente de Tomocicla é deixa-la na garagem. Esta situação fica no extremo esquerdo da linha do risco. No outro extremo está a experiência. Até que ponto nesta linha você está disposto a andar para a direita? Este posicionamento na linha do risco compete a você ou ao Estado?

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- Até que ponto o Rei e o governo em geral estavam preocupados com a segurança, e até que ponto contabilizavam os impostos provenientes das vendas das Tomociclas e principalmente dos acessórios criados para dar esta sensação de segurança dos Tomociclistas, pois apesar de todo o esforço de Galileu colocar mais segurança nas Tomociclas, o mesmo não foi feito nas estradas (fora o tomotrilho), da mesma forma que foram projetadas para os espaciostosos.

- Vamos lá, feche os olhos e pense com sinceridade por que você quer uma Tomocicla, e o que está disposto a arriscar em prol da experiência de pilotar uma. Por que você não compra um Espaciostoso? Lembre-se que em Cinzelândia não há trânsito, e o governo dá de presente um Espaciostoso a todos os viventes que completam dezoito anos.

Bem, alguns entenderam, outros leram o primeiro parágrafo e desistiram, e poucos chegaram até o final… Mas quem chegou, arrumou um alimento para pensar em Cinzelândia.

Keep Riding (and thinking)!

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4 comments

  1. Fenomenal Roberto!

    Nos faz pensar que realmente a gestão de risco tem que ser individual e cada cinzelandez tem que saber se para sua vida é melhor uma tomocicla ou um espacitoso.
    Como um ser enquadrado na categoria Ogro, acho que a tomocicla deve ser aproveitada na essência de sua concepção, que é como Galileu Jobs fez para que fossemos a paisagem e não apenas a admirássemos.
    O problema é que alguns cinzelandenses – com um tom mais voltado para o rosa – sofrem ao ver um ogro feliz com sua tomocicla e fazem o impossível para impor sua opinião, que infelizmente é a mesma do rei, oque torna a vida dos pobres ogros cada vez mais difícil.

    Mais uma vez parabéns pelo excelente texto!

    Um abraço!

    Oswaldo

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    • colunista 2 colunista 2

      Oswaldo,
      Muito obrigado pelo comentário, você realmente pegou o espírito do texto.

      Continue nos lendo!!!!

      Grande abraço,

      Roberto Severo

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  2. WTF?!

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Comentário Best Riders


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