50 Tons de Cinza – Parte I

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Caro leitor internauta, se você veio de algum mecanismo de busca do tipo Google, Yahoo, onde procurou um tema sensual, sexual, caliente, acertou o nome mas errou o alvo do tema. Este texto não é sobre literatura picante e eu não sou o tal de E. L. James. Mas puxe uma cadeira e sossegue, sinta-se em casa! Mas se realmente tiver que ir procurar seu tema hot, hot, hot, bom trabalho, e não esqueça de botar um bookmark e voltar mais tarde!

Screen Shot 2012 10 27 at 9.51.36 PM 50 Tons de Cinza   Parte IPara os que continuaram, vocês estão prestes a ler uma matéria sobre motociclismo que se situa entre a ausência total de cor, também chamado de preto, e a combinação de todas as cores do espectro, também conhecida como branco. Esta região onde o texto se passará também é conhecida como cinza, ou para nós, durante este período de leitura, de “segurança“, ou como prefiro chamar, por seu nome mais essencial: “gestão de risco”.

É um tema sobre “o” cinza, e de que forma vejo o motociclismo passar por esta sombra. Não é sobre verdades, nem sobre certo e errado, é apenas sobre cinza.

Então começo dizendo que a segurança é cinza! E monocromática assim, é bela.

Screen Shot 2012 10 27 at 9.52.15 PM 50 Tons de Cinza   Parte IVale dizer que sou de uma época cinzenta, quando os capacetes eram mais ou menos obrigatórios, os cintos de segurança de carros costumavam empoeirar (aí é que ninguém usava mesmo), e assim era tratada a segurança. Esta coluna prima por não fazer julgamento moral em relação a isso, portanto digo que era perigosamente delicioso sentir o vento no rosto, mas nem tão divertido correr o risco de, além do vento, sentir o asfalto nas bochechas ora por vez.

Screen Shot 2012 10 27 at 9.51.59 PM 50 Tons de Cinza   Parte IO gerenciamento de risco estava exclusivamente na garupa de nossa moto. Porém, no fim dos anos oitenta, início dos noventa, vários fatores fizeram com que a lei apertasse, e também não estou aqui para opinar nem julgar os motivadores para este súbito aperto da lei. O fato é que eu, um libertário anarquista, precisava seguir as leis, ou sofreria as conseqüências. Mas este texto não é sobre mim. Isso tudo foi apenas um contexto, um cenário para contar a história sobre uma terra longínqua, a “Cinzelândia” da qual sou estudioso e só conheço por meio de raras escrituras e alguns poucos registros fotográficos.

Na “Cinzelândia” existiam apenas movedores de pessoas com quatro rodas, os cobiçados “Espaciostosos” que eram fabricados em uma cor cinza-escura, quase preta. Lá também não havia trânsito pesado, hora do rush, nem escassez de combustível, e os Espaciostosos eram acessíveis a todos, e na verdade o governo concedia de graça aos habitantes assim que completassem 18 anos de idade. Nada impedia que todos fossem felizes proprietários de reluzentes Espaciostosos.

Screen Shot 2012 10 27 at 9.52.11 PM 50 Tons de Cinza   Parte IEstas engenhocas existiam há décadas, há quase uma centena de anos, e o governo de Cinzelândia criou várias leis e obrigações para que estes “eficientes” movedores de pessoas pudessem ser fabricados. Vou citar algumas delas:

  • Você não pode colocar a cabeça ou qualquer membro para fora da janela do Espaciostoso enquanto este estiver em movimento;
  • Ao entrar no Espaciostoso você deve obrigatoriamente se amarrar em seus bancos antes de começar a se locomover;
  • O Espaciostoso, além dos espelhos laterais, deve ser equipado por um central para melhor olhar outros Espaciostosos atrás;
  • Existem hastes com borrachinhas do lado de fora do vidro dianteiro do Espaciostoso para, em caso de chuva, serem acionados e eliminar pingos de água que possam atrapalhar a visão do condutor do Espaciostoso;
  • Falando em proteção contra o vento é preciso que os Espaciostoso tenham um vidro frontal com determinada transparência para proteger os condutores;
  • Tem que estar equipado com roda sobressalente em caso de um pneu furar no meio do percurso, e também um objeto chamado “Tamanduá” para levantar o Espaciostoso e trocar o pneu;
  • Em caso de quebra, tem que haver um triângulo reflexivo para ser colocado na estrada há uns 100 metros atrás do Espaciostoso
  • Os bancos do passageiro também devem possuir cintos de segurança e crianças devem estar confortavelmente nos bancos de trás e devidamente amarradas.

Screen Shot 2012 10 27 at 9.52.15 PM1 50 Tons de Cinza   Parte INesta terra também vivia um brilhante inventor, Galileu Jobs, um visionário que projetou um movedor de pessoas diferente, e batizou como “Tomocicla“. A ideia dele era que o condutor tivesse mais emoção ao conduzi-la, “participasse da paisagem, não a apenas contemplasse”,  e outros termos e explicações que certamente virariam lugares comuns décadas mais tarde, mas a história não foi tão generosa com Galileu.

Screen Shot 2012 10 27 at 9.51.36 PM1 150x125 50 Tons de Cinza   Parte INo dia do lançamento e apresentação oficial à comunidade Cinzelandiana, foi reunida boa parte da população, e formadores de opinião, toda a classe científica, políticos, clero, e autoridades de trânsito na praça central do município, e Galileu, bem em frente a igreja, apresentou sua nova engenhoca:

- Cinzelandianos e Cinzelandianas – começou Galileu – aqui estamos nós para apresentar um novo conceito em “mover pessoas”. Com esta revolucionária invenção, o condutor participará ativamente da paisagem sem ser confundido com ela. Terá a experiência real de se locomover! Consigo ver congregações de condutores que  adotarão este novo “espetáculo sobre rodas” sentindo a física do movimento ao se deslocar.

O público nem piscava.  O que estaria por baixo daquele pano cinza-claro? Galileu continuou, e em rápido movimento com o braço bradou:

- Ei-la!!! – puxou o pano acinzentado e desnudou a misteriosa Tomocicla, um equipamento muito, mas muito semelhante mesmo a algo que é conhecido por nós, habitantes desta dimensão, como “motocicleta“.

Comoção na platéia…

- Aqui está a  “Tomocicla” que é o seu nome provisório – continuou um animado Galileu. – Vou começar a dizer as características deste fantástico invento. Para que o condutor sinta realmente a emoção de pilotá-la recuperei algumas ideias dos nossos adorados Espaciostosos, mas claro, precisei fazer algumas concessões - e com toda sinceridade científica que conseguiu reunir, relacionou as características da “Tomocicla”:

  • Sozinha ela não para em pé, se inclinar muito cairá ao chão e não levantará facilmente, por vezes precisará de dois ogros para ergue-la;
  • O passageiro deverá se equilibrar atrás do condutor e dependerá exclusivamente da força de seus braços para se agarrar a ele ou a qualquer parte da Tomocicla e desta forma não cair, e se espatifar na estrada;
  • Dependendo do modelo da Tomocicla uma aceleração mais entusisamada proporcionará o levantamento de sua proa, virando o equipamento para trás deixando o condutor e seu passageiro estatelados no chão. O mesmo vale para curvas mal elaboradas, a chance de beijo no asfalto é grande; na chuva as chances se tornam exponenciais;
  • Falando em chuva, o condutor e seu possível passageiro devem limpar as gotas de chuva de seus visores pessoais com as mãos;
  • Há apenas dois espelhos laterais para monitorar a popa;
  • Se furar um dos dois pneus, será o mesmo que enguiçar, o condutor ficará a deriva na estrada, e deverá chamar um tipo de Espaciostoso que botará a Tomocicla na sua lomba e a levará para que um mecânico possa trocar o pneu;
  • Não será obrigatório carregar um Tamanduá consigo, pois como já sabido, apenas um vivente não conseguirá segurar a Tomocicla e levantar o Tamanduá embaixo dela ao mesmo tempo
  • Não preciso falar nada sobre cintos de segurança ou colocar a cabeça, braços e pernas para fora da janela, pois não há janelas, o corpo todo do cidadão ficará para “fora”. Espaciostosos contém o condutor, as Tomociclas estarão contidas no condutor, entenderam?

Screen Shot 2012 10 27 at 9.52.11 PM1 50 Tons de Cinza   Parte IGalileu Jobs ergueu os braços em júbilo, mas os aplausos não vieram. No lugar disso escutou-se um murmúrio da platéia e grande desconforto das autoridades. Pouco a pouco a multidão foi deixando a praça, as autoridades cumprimentaram friamente o inventor e não restou mais nada o que fazer além de Galileu empurrar sua Tomocicla para sua casa pelas ruas vazias.

Screen Shot 2012 10 27 at 9.51.53 PM 50 Tons de Cinza   Parte INo dia seguinte policiais reais bateram na casa de Galileu com uma ordem de prisão. “Sr. Galileu Jobs, por decisão do conselho de segurança e ética de Cinzelândia, o senhor foi condenado a prisão perpétua ou até que se arrependa do projeto da Tomocicla vindo a público pedir desculpas por exteriorizar esta ameaça social a qual tentou inserir no seio de nossa comunidade“. Sem maiores delongas, Galileu foi algemado e jogado nas masmorras de Cinzelândia.

Fim da Parte I

Alimento para pensar:

1) Em um mundo onde a referência são carros, por que raios existem as motocicletas???!!! Qual o motivador? Se não existissem motocicletas no mundo seria aprovado um projeto similar nos dias de hoje?

2) Aqui já identificamos dois comportamentos frente aos riscos: os que assumem maior risco e compram a idéia das inovadoras Tomociclas pela experiência que elas fornecem, e os que preferem não assumir o risco e compram os obesos Espaciostosos.

Na parte dois, vamos descobrir o que aconteceu com o perspicaz Galileu.  Se safou da prisão de Cinzelândia?

Vive la liberté e Keep riding

13 comments

  1. o pior é vc lidar com os antisociais do transito, q só pensam em si. E quando penso que em uma moto eu sou presa fácil pra esse tipo de gente, isso me desanima demais. Me dá uma vontade oposta, de comprar um SUV gigante pra me proteger deles.

    Se fosse eu em uma moto em um mundo com educação no transito, não teria problema nenhum pra sair por aí de moto.

    Mas curto demais, fui ao salao 2 rodas, acompanho o BR e o Motonline.

    Mas Acho q em algum momento me lançarei à sorte do motociclismo, simplesmente por paixão

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    • colunista 2 colunista 2

      oi Sergio,

      isso que você falou é a questão do risco, que em grandes cidades aumenta, e não tiro a sua razão, cada um deve saber como dosar o risco e o gerenciamento dele. É muito pessoal mesmo, mas fique tranquilo se um dia for para comprar uma moto vc o fará. Motociclista, pelo que percebi, você já é!

      Grande abraço,

      Roberto Severo

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  2. ainda nao comprei uma moto pq nao cheguei a conclusao de se vale o risco. Tenho vontade, mas o risco me parece muito grande, tanta coisa boa pra fazer q nao te coloca em risco como a moto. Quem sabe ainda nao chegue a outra conclusao.

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    • colunista 2 colunista 2

      Sergio,

      legal o seu depoimento, pois é sincero. Como veremos nas próximas partes da história, nem todo mundo que gostaria, deveria… Isso independente de quanto você colocar de equipamentos de segurança no seu corpo…

      Continue lendo!

      Abraço,

      Roberto Severo

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  3. Roberto,

    Parabéns, Inteligente e criativo… Nota 10! Como vai terminar???? Hehehe. Esta ansiedade é coisa de noveleiro!

    Valeu,

    Cristina

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    • colunista 2 colunista 2

      Olá Cristina,

      fico feliz de ter passado a mensagem, mas continua… < a seguir cenas dos próximos capítulos >!

      Abraço,

      Roberto Severo

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  4. Roberto,

    Mais uma vez me surpreendo com sua coluna, brilhante parábola sobre segurança, carros, motos… quando sai a continuação?

    Lucelio Alvarez

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    • colunista 2 colunista 2

      Lucélio,

      obrigado pelo comentário, a continuação da “novela” :-) sai na próxima coluna.

      Abraço,

      Roberto Severo

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  5. Pelo sobrenome de “Galileu Jobs”, a “Tomocicla” custaria o valor de uns 3 “Espacitosos”…de resto a referência é bem essa mesmo.
    Do livro, é um lixo e não recomendo a ninguém, são 400 páginas de enrolação pra umas 40 ou 45 páginas “quentes”, fora o final que é totalmente ridiculissimo.

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    • colunista 2 colunista 2

      Olá Oswaldo,

      Muito grato pelo comentário! Sim não duvido nada que o preço seria este :-) , mas que o “cara” inovou, ah! Isso ele fez. Comprei o livro e ainda não li.

      Abração,

      Roberto Severp

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  6. Analogia e texto irretocáveis como sempre Roberto!!!
    Parabens!!!
    O que seria de nós ogros sem nossas tomociclas?

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    • colunista 2 colunista 2

      Olá Rafael,

      obrigado pelo comentário… vc não perde por esperar o desfecho desta pequena novela cinzenta. :-)

      Abraço,

      Roberto Severo

      Responder
  7. Analogia irretocável como sempre Roberto!!!
    Parabens!!!

    Responder

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